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	<title>Edu Mussi &#8211; Escritor</title>
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	<description>Site para divulgação do meu trabalho como escritor.</description>
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		<title>SE ELE VOLTAR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 22:31:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando era criança, um dos primeiros ensinamentos que recebi sobre a religião católica, pautava sobre Deus e seu filho, Jesus [&#8230;]</p>
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<p>Quando era criança, um dos primeiros ensinamentos que recebi sobre a religião católica, pautava sobre Deus e seu filho, Jesus Cristo. Contavam-me sobre o nascimento de Jesus, como viveu, sobre seus pais e como morreu. Naquela época eu não tinha nenhum discernimento para questionar e pedir detalhes sobre essas histórias. E dessa forma as imagens formaram-se no meu imaginário a figura de uma pessoa que não era igual a nenhum de nós, ou seja, não era um ser humano igual a outro qualquer, mas alguém que viveu aqui na Terra, há mais de dois mil anos, por pouco tempo e deu sua vida para nos salvar.</p>



<p>Quando eu ouvia que ele morreu para me salvar, logo me sentia culpadao pela sua morte. A culpa exacerbava ainda mais quando me ostentavam a imagem de um homem, quase nu, pregado numa cruz, com um monte de espinhos espetados na cabeça e sangrando por diversas partes do corpo. Aquilo me deixava terrivelmente deprimido (e eu ainda nem sabia o que era deprimido).</p>



<p>À medida em que fui crescendo e criando coragem para questionar sobre este assunto tão misterioso, fiz a primeira pergunta: Veio me salvar de que? A resposta recebida foi: Do fogo do inferno, por causa dos seus pecados. Aí o medo se tornou aterrorizante, porque tudo que eu fazia, pensava em Jesus e me questionava: Será que se eu fizer isso, vou pro inferno? Será que é pecado? Para complicar ainda mais, eu nem sabia o que era pecado.</p>



<p>Quando me fizeram decorar os 10 mandamentos, deu um nó sem precedente, na minha cabeça. Muitos eram fáceis de entender – não matar, não roubar, etc&#8230; mas não desejar a mulher do próximo, complicou, porque eu nem sabia o que era desejo. Amar o próximo como a ti mesmo e amar a Deus sobre todas as coisas, me deixavam baratinado, porque não sabia o que era amor e nem sabia quem era Deus. Amar ao próximo – tudo bem eu gosto das pessoas, não tenho raiva de ninguém. – será que é isso, me perguntava. E amar a Deus – como iria amar a Deus se não o conhecia e nem sabia onde encontra-lo. Isso tudo era muito complicado para uma criança.</p>



<p>Na minha primeira comunhão, disseram que eu tinha que me confessar com o padre antes de receber a hóstia. A professora disse-me para escrever uma lista num papel dos meus pecados para não esquecer de nenhum na hora da confissão. Dá para imaginar a situação de uma criança de dez anos, naquela hora? Para não ir sem a lista, escrevi: Joguei uma pedra no urubu; atirei com meu estilingue num bem-te-vi; joguei um pedaço de pau num gato; roubei uma goiaba da goiabeira do vizinho. Por causa desses “pecados” o padre me mandou rezar 10 pai nosso e 10 avemaria.</p>



<p>E o tempo seguiu sem nos dar satisfação, já estamos em 2026 e até hoje ouço mais ou menos a mesma história. Será que em pleno século XXI, seria pecado contarmos a história baseada nos fatos? Será que Jesus ficaria contrariado se contássemos que ele não morreu de uma gripezinha, de febre, acamado, com diarreia ou outra doença qualquer? Será que Jesus ficaria zangado se disséssemos como ele viveu, com quem ele andou e o que realmente fez?</p>



<p>Antes de continuar, peço desculpas se estiver contrariando as crenças do leitor ou leitora, porque não estou fazendo crítica a alguma religião. O objetivo deste texto é apenas externar minha interpretação sobre uma história, cujos fatos estão registrados nas escrituras sagradas e sobre a qual compartilho minha interpretação.</p>



<p>Sabemos que Jesus foi uma pessoa pobre. Pobre igual a esses que a gente encontra todos os dias pelas ruas. O pai era um carpinteiro, pobre, e a mãe, senhora do lar (naquele tempo as mulheres não trabalhavam fora), também pobre. Jesus passou suas fases de infância, adolescência e adulta, sempre entre os pobres. Era como muitos que nascem, crescem e morrem numa favela dos tempos atuais.</p>



<p>O que distinguia Jesus de outras pessoas, era sua inteligência e sabedoria, porque ele foi um ser humano detentor de um espírito elevadíssimo. Por conta dessa virtude, ele dedicou sua vida a transferir seus conhecimentos para um maior número de pessoas. E a maioria dos seus ensinamentos não era apenas com palavras, mas com atos, com exemplos. Ele dizia como deveria ser feito e fazia para mostrar.</p>



<p>Jesus enfatizava a importância da gratidão, da solidariedade, do respeito, do perdão e do amor.&nbsp; Ressaltava a necessidade do compartilhamento do conhecimento e bens; chamava a atenção dos malefícios da desigualdade social; da falta de justiça; da desigualdade nas oportunidades. Jesus não foi racista, homofóbico e foi totalmente contra a violência.</p>



<p>Portanto, Jesus veio para nos salvar, não do inferno, mas da ignorância, nos passando todos esses ensinamentos. Lições essas que o mundo ignorou e corrompeu, ao ponto de já terem se passados mais de dois mil anos e a humanidade continua se destruindo porque fazem tudo ao contrário do que ele disse e continuam repetindo a mesma história deturpada sobre sua vida, na tentativa de nos intimidar, nos tornando culpados pela sua morte.</p>



<p>Ao longo de pouco mais de três décadas, Jesus incomodou muito as elites daquela época (qualquer semelhança com a atual, é mera coincidência). Diante disso, trataram de lhe arranjar um crime para o tirar de circulação. Mas não bastava apenas prendê-lo, tinham que humilha-lo e depois sumir com ele. E assim o fizeram.</p>



<p>Jesus, foi preso sem nenhuma comprovação de crime (interessante a semelhança com os dias atuais). Julgado e condenado a morte. Mas antes de ser executado, foi terrivelmente torturado (outra coincidência) e executado de uma forma terrível.</p>



<p>Se Jesus voltasse aos dias atuais para expor seus pensamentos, discursar e agir do mesmo jeito que fez quando esteve aqui, com certeza já estaria preso e incomunicável pelo resto da vida, ou talvez até morto.</p>



<p>Edu Mussi</p>



<p class="has-medium-font-size"></p>
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		<title>ESPERANÇA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Jan 2026 19:06:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na madrugada do dia 16 de janeiro de 2026, em sono profundo, uma voz desconhecida falou comigo: –– O que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na madrugada do dia 16 de janeiro de 2026, em sono profundo, uma voz desconhecida falou comigo:</p>



<p>–– O que desejas de presente pelos teus 72 anos que completas hoje?</p>



<p>Não acordei e, dormindo, perguntei:</p>



<p>–– Posso pedir qualquer coisa?</p>



<p>–– O que quiseres, mas tem bom senso e não exagera.</p>



<p>–– Tudo bem, seguem meus desejos:</p>



<p>Gostaria de ter tempo para percorrer os lugares que embasaram minha vida, onde aprendi a nadar, correr, jogar bola e outras estrepolias que fiz quando criança e adolescente.</p>



<p>Espero, um dia, poder me encontrar com os amigos da época de criança e adolescência, e, principalmente, que estejam com os mesmos sorrisos alegres que tinham. Sei que isso será difícil, porque a gente muda, mas continuo a alimentar essa esperança.</p>



<p>Desejo que os amigos e as pessoas que amo, mas que não tenho notícias, saibam que estão sempre em meus pensamentos e rogo para que estejam, pelo menos, abrigados, dormindo confortavelmente, bem alimentados e com saúde.</p>



<p>Almejo viver o suficiente para ouvir a voz forte e a barba no rosto dos meus netos. Não quero exagerar nas minhas esperanças, em desejar pegar no colo de uma bisneta ou bisneto.</p>



<p>Anseio para que meu filho tenha uma velhice parecida com a minha e que possa se divertir com seus netos como me divirto com os meus. Por último, espero que meu fim seja o começo de uma outra vida, sem traumas e que logo possa fazer um bom recomeço.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="194" height="259" src="https://edumussiescritor.com.br/wp-content/uploads/2025/07/2025-07-11-Foto-postagem.jpg" alt="" class="wp-image-665"/></figure>
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		<title>MÉDICA MISTERIOSA</title>
		<link>https://edumussiescritor.com.br/medica-misteriosa/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Sep 2025 17:22:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Lá estava ela, linda, de uma beleza quase surreal. Bela e maravilhosa, sentada à beira da praia onde a água [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Lá estava ela, linda, de uma beleza quase surreal. Bela e maravilhosa, sentada à beira da praia onde a água do rio Tapajós, de quando em vez, beliscava a pele acetinada de suas pernas e coxas, bronzeada pelo sol de Santarém. E para tornar aquela paisagem ainda mais esplendorosa, estava sobre a areia branca da praia de Alter do Chão e à sua frente o majestoso rio Tapajós.</p>



<p>Ninguém resistiria diante daquela imagem. Não me contive, aproximei-me da moça, cumprimentei-a com um bom dia e pedi para sentar-me ao seu lado. Não muito perto, pois não queria que ela percebesse meu nervosismo, causado pela emoção.</p>



<p>Ela olhou-me com um sorriso inebriante e disse:</p>



<p>— Pode sentar-se, fique à vontade.</p>



<p>Depois virou o rosto em direção ao rio que naquele momento estava azul como se fosse mar e após alguns minutos calada, o olhar fixo no horizonte, virou-se em minha direção e perguntou:</p>



<p>— Você acredita em Deus?</p>



<p>Fiquei desconcertado com a pergunta, porque me pegou de surpresa e a resposta seria complicada. Porém, mas logo me recompus e respondi:</p>



<p>— Claro que acredito, a prova disso é a existência desse lindo lugar que ficou ainda mais belo com a sua presença.</p>



<p>Ela caiu na gargalhada e respondeu sem parar de rir:</p>



<p>— Lhe faço uma pergunta séria e você me responde com uma cantada. Mas gostei dessas palavras sedutoras, foi muito original, muito obrigada.</p>



<p>— Desculpe, lhe contrariar, não estou lhe seduzindo. Não queria lhe responder simplesmente que acredito, e complementei a afirmativa dizendo isso. Mas acredite, fui espontâneo e verdadeiro.</p>



<p>— Obrigada, mais uma vez, pela gentileza de sua resposta. Estou tão inebriada com a beleza deste lugar, a praia, o rio, essa vegetação ao longo da orla que me remeteu a essa reflexão sobre Deus. Tudo é lindo. Nunca tinha visto nada tão bonito como essa paisagem.</p>



<p>— De onde você é?.</p>



<p>— Sou de Belém. Apesar de estar perto, nunca tinha vindo a Santarém. E você, de onde é?</p>



<p>— Sou daqui. Crie-me nessas praias. Aqui foi meu parque de diversão e minha escola de natação. Sem professor, porque aprendi a nadar sozinho. Atualmente moro em Belém.</p>



<p>— O que a fez viajar aqui para Santarém?</p>



<p>— Desestressar. Sou médica, clínica geral, trabalho em tempo integral no Pronto Socorro Municipal. Por falta de profissionais, ultimamente tenho prestado atendimento por cerca de 12 a 14 horas por dia, e às vezes passo 24 horas lá. Eu estava quase entrando em colapso. Uma amiga que é santarena me recomendou vir para cá. Pretendo passar uns quinze dias por aqui. Desculpe, mas não sei seu nome.</p>



<p>— Me chamo Pedro, e você?</p>



<p>— Meu nome é Ana Beatriz, mas todos me tratam por Bia. No hospital sou a Dra. Bia. E você faz o que em Belém?</p>



<p>— Sou dentista, autônomo. Tenho meu consultório próprio. Não poderei passar quinze dias aqui. Preciso voltar amanhã para Belém.</p>



<p>–– Por que você já vai embora?</p>



<p>–– Não posso ficar muito tempo parado, afinal, tenho que pagar minhas contas. Mas poderemos nos encontrar em Belém, será possível?</p>



<p>— Claro que sim. Me informe seu telefone e, quando eu chegar em Belém, lhe passo uma mensagem.</p>



<p>— Aguardarei ansioso. Agora preciso ir pois tenho alguns assuntos para resolver antes de partir.</p>



<p>–– Lamento você ter que ir.</p>



<p>–– Fique certa de que me afasto com o coração partido, pois gostei muito de ter me encontrado com você. Sua companhia é muito agradável. Até lá por Belém.</p>



<p>Quando estava me afastando, Beatriz levantou-se e gritou:</p>



<p>— Espera!</p>



<p>Parei e esperei-a. Quando chegou perto de mim, quase tocando seu corpo ao meu, jogou seus braços em torno do meu pescoço e me beijou na boca. Surpreso, fiquei estático nos primeiros segundos, mas logo em seguida correspondi ao longo beijo.</p>



<p>Depois do êxtase, ela afastou-se de mim, disse-me que isso era para não a esquecer. Virou-se e retornou ao local onde estava sentada. Fiquei por alguns instantes olhando para ela caminhando, tentado a segui-la, mas achei melhor continuar meu caminho.</p>



<p>Um mês depois, quando estava saindo do meu trabalho, por volta das 18 horas, recebo uma ligação de um número desconhecido. Atendi e, para minha surpresa, era a Ana Beatriz. Reconheci pela voz.</p>



<p>— Oi, Pedro, tudo bem com você? Ainda se lembra de mim?</p>



<p>— Claro que sim, como poderia esquecer?</p>



<p>— O que você está fazendo agora, ainda tenho duas horas antes de ir para o Pronto Socorro. Você não quer tomar um café aqui no meu apartamento?</p>



<p>–– Quero. Qual seu endereço?</p>



<p>–– É um prédio em frente à praça Batista Campos, na tv Padre Eutíquio.</p>



<p>— Chegarei rápido, meu consultório é perto.</p>



<p>Ao chegar no endereço dela, encontro um apartamento bem estruturado. Sala ampla, numa das extremidades um sofá vermelho de dois lugares e uma poltrona em cada lado. O apartamento inteiro era decorado com produtos caros. Através de um pequeno corredor, tinha-se acesso à cozinha e ao fundo a suíte.</p>



<p>Sentamo-nos no sofá e na mesinha de centro já estava uma bandeja com uma garrafa térmica, alguns biscoitos, torradas e patês. Conversamos sobre amenidades, trocamos informações sobre nossas profissões, locais de trabalho e outras trivialidades. Como nossos corpos estavam quase colados, virei-me pra ela e disse:</p>



<p>–– Não esqueci daquele beijo lá na praia. Você me deixou pensando nele até hoje.</p>



<p>— Foi? Pensei que tivesse esquecido, pois só agora você foi falar nele.</p>



<p>— Por isso, não. Segurei-a pelo rosto e beijei-a intensamente.</p>



<p>Esse beijo deu início a uma troca de carícias que estavam se intensificando, mas de repente Bia estancou e disse:</p>



<p>— Vamos com calma, Pedro. Hoje não. Marquemos outro encontro qualquer dia.</p>



<p>–– Quando, Bia?</p>



<p>–– Eu lhe procuro. Preciso sair agora para meu trabalho e já estou quase atrasada. Ainda vou tomar banho e me arrumar. Levante-se e vá embora, por favor.</p>



<p>— Se você quiser, deixo você no Pronto Socorro.</p>



<p>— Não precisa, estou com meu carro na garagem. Vá embora, por favor.</p>



<p>Levantou-se e foi abrir a porta para eu sair.</p>



<p>Quando eu estava ultrapassando a porta, o celular de Bia tocou. Ela atendeu imediatamente, virou-se de costa para mim e falou baixo: “daqui a meia hora”. Desligou o telefone e disse-me que já estavam cobrando a presença dela no hospital.</p>



<p>Depois desse encontro, passaram-se dez dias e eu não conseguia mais tirar esta mulher da minha mente. Não sei o que estava acontecendo comigo, pois a saudade intensificava cada vez mais. Evitei de telefonar, porque ela me pediu enfaticamente para não fazer isso. Que eu esperasse, pois ela me procuraria. Não quis contrariá-la.</p>



<p>Passados mais alguns dias, eu estava na Estação das Docas tomando um sorvete e uma moça aproximou-se de mim vendendo rosas vermelhas. Instintivamente comprei uma e pensei: <em>Ah, vou levar essa rosa para a Bia lá no Pronto Socorro. Ela disse-me que trabalhava à noite, quase todos os dias.</em></p>



<p>Ao chegar no hospital, fui até o balcão da recepção procurar pela doutora Bia. A atendente olhou para mim interrogativamente e falou:</p>



<p>— Não conheço nenhuma doutora Bia que trabalhe aqui, meu senhor.</p>



<p>— Com certeza? Doutora Ana Beatriz, insisti.</p>



<p>— Meu senhor, eu trabalho aqui há mais de vinte anos e não há nenhuma doutora Ana Beatriz e nem doutora Bia.</p>



<p>Pedi desculpas e sai cabisbaixo e ao mesmo tempo intrigado. O que está acontecendo comigo? Isso é muito estranho. Preferi não ir até o apartamento dela. Achei prudente esperar passar a surpresa e aguardar o contato dela.</p>



<p>Num domingo, quinze dias depois do último encontro, Ana Beatriz telefona e me pergunta: Vamos nos encontrar hoje às 18 horas na Estação das Docas para tomarmos um sorvete?</p>



<p>— Você não vai trabalhar hoje no Pronto Socorro?</p>



<p>— Não. Estou de folga hoje.</p>



<p>— Ótimo. Espero você lá.</p>



<p>Pontualmente às 18 horas chega a Bia, linda e deslumbrante. Sua beleza era tanta, ao ponto de fazer qualquer padre se ajoelhar e pedir a Deus que o livrasse da tentação. Já me encontrava sentado à mesa.</p>



<p>Levantei-me, abracei-a e beijei-a no rosto. Depois de saborearmos nossos sorvetes de bacuri, disse a ela que gostaria de ir até seu apartamento para terminarmos aquilo que havíamos começado no sofá. Ela caiu na gargalhada, mas concordou:</p>



<p>— Também estou desejosa disso.</p>



<p>Ao chegarmos no apartamento, as carícias preliminares aconteceram na sala, mas logo em seguida fomos para o quarto e fizemos sexo várias vezes. Eu nunca tive uma transa tão intensa como essa. Bia tinha algo especial de fazer qualquer homem se arrastar por ela.</p>



<p>Por volta da meia noite, Bia levantou-se e entrou no banheiro. Depois de tomada banho, falou para mim:</p>



<p>— Gostaria que você fosse dormir na sua casa, pois pela manhã bem cedo terei que sair para o trabalho. Não gosto que ninguém durma comigo.</p>



<p>— Para que trabalho você vai de manhã bem cedo?</p>



<p>Ela virou-se pra mim, sem demonstrar surpresa, mas séria com olhar fixo em mim. De seus olhos partiam raios invisíveis e não permitiam que eu mantivesse meu olhar fixo nos dela. Era um olhar intimidador.</p>



<p>— O que você quis dizer com essa pergunta? Por que não faz a pergunta mais direta?</p>



<p>— Estive no Pronto Socorro outro dia procurando por você e me disseram que lá não trabalha nenhuma Ana Beatriz.</p>



<p>Bia sentou-se na beira da cama e falou pausadamente:</p>



<p>— Tudo bem. Vamos acabar com esse jogo do esconde-esconde. Não trabalho no Pronto Socorro. Não sou médica e nem me chamo Ana Beatriz.</p>



<p>Ergui-me da cama surpreso com essa avalanche de revelações, mas Ana puxou pelo meu braço e continuou a falar:</p>



<p>— Agora você vai ouvir minha história. Sente-se, por favor.</p>



<p>— Meu nome verdadeiro é Maria José e moro no bairro da Pedreira. Aqui não é minha residência. É meu local de trabalho, usado para receber meus “fregueses”. Sou garota de programa de luxo, em outras palavras, sou uma puta cara. Meus clientes são só executivos, grandes empresários e políticos. Para você ter uma ideia da estirpe deles, uma hora de atendimento custa cinco mil reais. Esse é o valor mais baixo e minha agenda está cheia.</p>



<p>— Por que você se deitou comigo, Bia? Foi para se divertir?</p>



<p>— Não foi bem assim. Eu tive uma atração muito forte por você, mas logo eu neutralizei esse sentimento. Não posso me envolver emocionalmente com ninguém. Até porque não tenho coração.</p>



<p>–– Não diga isso, Bia.</p>



<p>–– O que faço não é por prazer é profissionalismo. –– Ignorou meu comentário e continuou:</p>



<p>–– Ganho muito dinheiro com esses machões endinheirados que, neste quarto, se arrastam igual a uma minhoca pelo prazer que lhes proporciono. E, sem falsa modéstia, sei fazer isso muito bem e ainda me trazem as bebidas mais caras do mercado.</p>



<p>–– Quanto ao seu desempenho, só tenho a elogiar.</p>



<p>–– Naquele dia em Alter do Chão, –– continuou Bia, sem dar trela pro meu comentário –– estava acompanhando um grande empresário da soja. Ele foi a um almoço de negócios na cidade e só retornaria à noite. Por isso você me encontrou sozinha na praia.</p>



<p>–– Então Santarém lhe era familiar.</p>



<p>–– Já conhecia aquele lugar, portanto tudo que falei para você naquele encontro foi inventado para romantizar o encontro. Ah, outra coisa: não sou de Belém. Sou do Rio de Janeiro. Instalei-me em Belém há dois anos porque o custo aqui é mais baixo e o número de empresários da soja, garimpo e da madeira cresceu muito aqui na região e eles não sabem o que fazer com tanto dinheiro fácil que chega às suas mãos, fruto das falcatruas nas quais estão envolvidos. Alguns deles, depois de tomar várias doses de uísque, me contam seus negócios fraudulentos &nbsp;como se fossem atos heroicos.</p>



<p>— Já falei muito sobre mim. E você, o que me tem a dizer Pedro?</p>



<p>— Primeiro quero lhe dizer que não sou dentista e muito menos tenho consultório e também não me chamo Pedro. Meu nome é Roberval. Sou balconista numa loja de materiais de construção.</p>



<p>–– Filha da puta! Bia caiu na gargalhada.</p>



<p>–– A única verdade que lhe falei é que sou de Santarém, mas moro em Belém.</p>



<p>–– O que você estava fazendo em Alter do Chão?</p>



<p>–– Estava em férias e retornaria para Belém, no dia seguinte. Quando te vi, pensei: <em>Vou já tirar uma ”casquinha” com aquela moça bonita e o resultado foi esse.</em></p>



<p>–– Seu crápula insensível. Aquele beijo que te dei foi verdadeiro.</p>



<p>–– Aquele beijo que trocamos lá na praia, me deixou maluco. Fiquei apaixonado por você.</p>



<p>— Pois trate de se desapaixonar, porque não haverá nada entre nós. Esqueça este endereço, por favor, e nunca mais venha aqui. O máximo que pode acontecer, já que nos misturamos nas mentiras, é sermos amigos, e nada mais.</p>
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		<title>PRESENTE DE NATAL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Sep 2025 18:59:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Cássio, gerente de agência de um banco estatal, nunca foi visto estressado, nervoso ou reclamar falta de tempo para fazer [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Cássio, gerente de agência de um banco estatal, nunca foi visto estressado, nervoso ou reclamar falta de tempo para fazer algo. Atencioso com todos, clientes e funcionários, quando surgia um problema que parecia grave, ele acalmava os envolvidos e tudo se resolvia.</p>



<p>Odete, solteira, 25 anos, ocupava a gerência de atendimento na mesma agência de Cássio. De corpo esguio, com curvas bem definidas, morena. Seus lábios carnudos despertava atenção, e quando falava, era comum seu interlocutor se distrair pela voz doce da moça.</p>



<p>Num dia de movimento intenso, no final do expediente, depois que a agência foi fechada, Odete arrumava sua mesa para sair, quando Cássio aproximou-se dela:</p>



<p>–– Vamos tomar algo numa cafeteria aqui perto?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>–– Estou cansada, Cássio. Não sei nem se consigo chegar em casa, porque vou caminhando. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>–– Por isso, não, vamos no meu carro. Depois lhe levo em casa. Vamos&#8230; Me faz companhia. Hoje o dia foi pauleira. –– Cássio adotou voz melosa e convenceu a moça.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>–– Não precisa chorar. –– Brincou –– Vou com você. Estou desejando um chocolate quente e bem cremoso.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Depois daquele dia, quando a agência fechava, os dois adquiriam o hábito de ir todos os dias fazer um lanche em algum lugar. A conversa fluía entre eles. Tinham a ideologia de vida muito parecida.</p>



<p>–– Vou lhe confessar uma coisa, Cássio, mas por favor, não ria de mim.&nbsp;</p>



<p>–– Claro que não rirei de você. Por que faria isso?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>–– Mesmo trabalhando afastada, eu tenho grande admiração por você. –– Depois de ter falado seu rosto ficou vermelho.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>–– Verdade? Por que você tem admiração por mim. O que lhe chama atenção?</p>



<p>–– A sua paciência em lidar com os outros. A calma que você passa para os clientes nervosos. Ah, Cássio, são tantas coisas.</p>



<p>Desviou o olhar de seu gerente, mas Cássio conseguiu ver que o rosto dela &nbsp;estava vermelho, pela timidez.</p>



<p>–– Sabe, Odete, gostei de você ter falado isso, porque me sinto à vontade em falar que também venho observando você há tempos.</p>



<p>–– Me espionando é seu Cássio?</p>



<p>–– Não querida, admiro o seu jeito delicado de trabalhar. A organização de sua mesa. A forma gentil como trata as pessoas. Nunca a vi se descontrolar diante de um cliente nervoso.</p>



<p>Para disfarçar a timidez, Odete olhou para o relógio e falou:</p>



<p>–– Está ficando tarde. Vamos embora?</p>



<p>–– Tudo bem. –– Cássio pagou a conta e saíram.</p>



<p>Ao chegarem em frente do prédio de Odete, suspirou, encheu-se de coragem e perguntou:</p>



<p>–– Você quer subir e tomar um chá comigo?</p>



<p>–– Você tem certeza? Não está com medo de mim. –– Falou rindo.</p>



<p>–– Por que medo? Por acaso você é um estuprador?</p>



<p>Ao ingressarem no apartamento, Cássio acomodou-se no sofá e Odete foi até à cozinha, contígua à sala e preparou um chá preto para os dois.</p>



<p>Tomaram a bebida em silêncio, trocando olhares de vez em quando. Terminaram com o chá ao mesmo tempo e Cássio quebrou o silêncio.</p>



<p>–– Por acaso, você tem namorado?</p>



<p>–– Não, sou só no mundo. Sou órfã. Fui criada num orfanato.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cássio ficou tão surpreso com a informação que não conseguia falar. Os olhos parecia que iriam saltar da órbita.</p>



<p>–– O que foi, Cássio? O que falei para assustá-lo dessa forma?</p>



<p>–– Nada, Odete. Desculpe a minha reação. Assustei-me com a coincidência, pois sou Órfão, também. Não tenho pais. Meus pais foram as freiras do orfanato onde fui criado.</p>



<p>Odete não se conteve e pulou no pescoço do Cássio e o abraçou demoradamente. Ele demorou alguns segundos para reagir e abraçá-la. Quando se afastaram ela falou:</p>



<p>–– Acho que é por isso que você sempre me atraiu.</p>



<p>–– Só por isso? –– Fez uma cara de tristeza.</p>



<p>–– Não seu bobo. Gosto de você. –– Deu um beijo rápido na boca do Cássio.</p>



<p>Ele puxou-a para junto de si, segurou no seu rosto e lhe beijou. Um beijo que começou levemente e aos poucos foi se aprofundando até que suas línguas estavam se digladiando sedentas de amor.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Após separarem suas bocas, Cássio segurou o rosto de Odete, fixou o olhar nela e falou com a voz reticente:</p>



<p>–– Gosto de você. Você aceitaria ser minha namorada.</p>



<p>Desse jeito começou o relacionamento dos dois colegas de trabalho. Depois de um ano de namoro, decidiram casar-se. Os dois venderam seus apartamentos e foram morar num maior com três quartos, adquirido por eles.</p>



<p>Depois de um certo tempo de casados perceberam que os filhos não vinham, então foram procurar ajuda médica. Trilharam por diversos consultórios e clínicas especializadas e o diagnóstico era sempre o mesmo: ambos tinham uma deficiência congênita que os impedia de gerar filhos.</p>



<p>Os espermas de Cássio não conseguiriam chegar aos óvulos da mulher, porque morriam no caminho. Odete, apesar de ovular, seu útero tinha uma formação defeituosa que jamais poderia conceber outra criatura no seu interior.</p>



<p>Apesar de tristes, conformaram-se com o diagnóstico, mas levou algum tempo para esquecerem o infortúnio.</p>



<p>–– Não vamos deixar isso abalar nosso amor. –– Disse com firmeza Odete.</p>



<p>–– Concordo com você, querida. Temos a alternativa de adoção, se não quisermos envelhecer sozinhos.</p>



<p>–– Pois saiba que já pensei nisso. Bom que você teve a mesma ideia. Vamos conversar com Irmã Celeste.</p>



<p>A freira, amiga do casal, dirigia um orfanato e eles contribuíam com roupas, brinquedos e alimentos para aquela instituição. Visitavam o orfanato todos os domingos. Ao vê-los num dia fora do habitual, ficou feliz, mas ao mesmo tempo curiosa.</p>



<p>–– Que bom, tê-los aqui num sábado pela manhã. Não virão amanhã?</p>



<p>–– Temos um assunto inadiável para conversar com você.</p>



<p>–– Pois não, Odete, vamos aqui para essa sala que é mais reservada.</p>



<p>Os dois sentaram-se em frente à mesa da freira e explicaram que desejavam adotar uma criança e esclareceram-lhe os motivos.</p>



<p>–– Fico emocionada em ouvir isso de vocês. Tenho certeza de que a criança que adotarem terá uma vida de felicidade.</p>



<p>–– Obrigado, Irmã. –– Os dois falaram junto.</p>



<p>Irmã Celeste prestou os esclarecimentos necessários, relativos à adoção de crianças sem, contudo, convencê-los a nada, porque percebeu que era aquilo que eles queriam. –– Podemos marcar a visita para amanhã?</p>



<p>–– Claro, Cássio. Como é domingo, aproveitaremos para vocês conhecerem as crianças. Aliás, vocês já conhecem, mas agora as observarão com outro olhar.</p>



<p>–– E o Natal já está próximo. Quem sabe nosso filho ou filha já não estará conosco. –– Interveio Odete.</p>



<p>–– Claro, claro. O que depender de mim isso acontecerá breve. Esperarei vocês amanhã às nove horas. Está bom esse horário?</p>



<p>No domingo, o clima estava maravilhoso. Céu sem um pedacinho de nuvem e temperatura amena. Chegaram pontualmente na hora combinada e sua amiga não perdeu tempo. Levou-os ao pátio interno onde as crianças brincavam. O lugar espaçoso permitia que corressem e se espalhassem com folga.</p>



<p>Odete e Cássio sentaram-se afastados para observar aquelas criaturas que ainda não tinham adquirido o conhecimento do mundo, mas já experimentavam a solidão desde o nascimento.</p>



<p>O casal viu no primeiro momento que haviam muitas opções. Depois de um longo período de silêncio, sem tirar os olhos daquelas criaturas, Odete disse:</p>



<p>— Se pudesse levaria todas, mas só posso com uma.</p>



<p>— Fiquem à vontade. –– Disse Irmã Celeste. –– Essa é uma decisão muito importante que impactará de forma significativa suas vidas. Portanto, não tenham pressa. Sigam o coração de vocês.</p>



<p>Mais um período de tempo calados se instalou, mas o casal fixou o olhar, em um garoto que aparentava ter 5 a 6 anos, sentado um pouco afastado do grupo, brincando sozinho e, de vez em quando, falava como se alguém estivesse na sua companhia.</p>



<p>Era um menino magro, esguio,&nbsp; de pele negra, cabelo encaracolado, rosto redondo, nariz afilado e lábios carnudos. Odete virou-se &nbsp;para a amiga e falou apontando para o menino:</p>



<p>— E aquele garoto? Nós o achamos muito interessante. Não é Cássio?</p>



<p>Cássio concordou com a esposa e perguntou:</p>



<p>–– Vocês têm informação de quando ele nasceu?</p>



<p>–– Não sabemos quando e nem onde nasceu. Foi simplesmente deixado em nossa porta, há cinco anos, mas pela sua formação corporal, aconteceu logo nos primeiros dias de nascido.</p>



<p>–– No registro dele como consta?</p>



<p>–– Como era dia de Natal, registramos o dia 25 de dezembro para festejar seu aniversário. Atribuímos-lhe o nome de Francisco. Mas o tratamos carinhosamente por Chico.</p>



<p>–– Muito interessante. –– Comentou Odete.</p>



<p>–– O mais interessante foi um bilhete encontrado no meio dos panos onde estava embrulhado, que dizia: “Cuidem do meu filho, pelo amor de Deus. Não nasci para ser mãe.”</p>



<p>Chico foi nosso presente de Natal. –– Concluiu Irmã Celeste.</p>



<p>–– Como ele é no dia a dia, Irmã?</p>



<p>–– Odete, o menino é quieto, até demais para sua idade, mas não há nenhum distúrbio com ele. É perfeitamente normal.</p>



<p>–– Ele não corre ou joga bola com os outros meninos? –– Questionou Cássio.</p>



<p>–– Não. Sempre se posicionou apartado do grupo. Senta-se no chão e brinca com os brinquedos disponíveis.</p>



<p>–– Olha que interessante. Ele fala com os brinquedos. –– Observou Odete.</p>



<p>–– Não é com os brinquedos. Ele fala com dois amiguinhos Jô e Tati.</p>



<p>–– Que coisa! O ideal seria levá-lo a um centro espírita.</p>



<p>–– Talvez, Odete, mas preferimos deixar passar. Acho que é da idade.</p>



<p>Depois de ouvirem com atenção os relatos da amiga, sobre o Chico, Odete e Cássio trocaram olhares por um momento e em seguida Odete virou para ela e disse:</p>



<p>— Ficamos interessados na adoção do Chico, podemos ir até lá conversar com ele?</p>



<p>— Claro, respondeu a freira. Tenho certeza de que vocês irão adorar conversar com o ele.</p>



<p>Cássio e Odete foram até onde o Chico se encontrava e ele, numa postura de gente grande, cumprimentou-os, sorriu e continuou brincando.</p>



<p>Depois de um breve tempo de conversas com a criança sobre suas brincadeiras, Irmã Celeste agachou-se e perguntou ao Chico:</p>



<p>— Você quer ir morar com esses meus amigos?</p>



<p>Chico levantou a cabeça e olhou para o casal. Primeiro para a Odete, depois para o Cássio, em seguida retornou para Odete e fixou o olhar nela por algum tempo. E finalmente respondeu:</p>



<p>— Quero. E deu um sorriso.</p>



<p>Irmã Celeste disse:</p>



<p>— Então vá pegar suas coisas que você já vai agora.</p>



<p>Olhou para o casal de amigos, que estava boquiaberto com a decisão dela, Irmã Celeste explicou:</p>



<p>–– Conheço vocês de muito tempo. Por isso estou fazendo isso. Assim vocês conhecerão o Chico e se certificarão de que é isso mesmo que querem.</p>



<p>–– Muito obrigada, minha amiga. –– Odete abraçou a Irmã.</p>



<p>–– Ninguém pode saber disso, viram? Amanhã providenciem rápido a papelada e me tragam assim que puderem.</p>



<p>Chico demonstrou simpatia e flexibilidade. Sem estardalhaço foi até seu alojamento e com a ajuda de outra irmã, juntou numa sacola de plástico as poucas roupas que possuía, os objetos pessoais e seguiu na companhia de seus novos pais, esbanjando alegria e perguntando tudo. A primeira pergunta que Chico fez aos dois, foi de tal forma, que deixou o casal surpreso com a objetividade do garoto:</p>



<p>— Posso chamar vocês de papai e mamãe?</p>



<p>Superada de imediato a surpresa, Cássio e Odete responderam juntos:</p>



<p>— Claro, Chico. A partir de agora você é nosso filho. –– Completou Odete.</p>



<p>Chico ficou felicíssimo com a resposta, e ao chegar em casa, seus pais mostraram-lhe sua nova morada e por último foram até a um dos quartos onde havia uma cama de solteiro e uma pequena mesa com cadeira.</p>



<p>— Este é seu quarto, Chico. –– Disse Odete. –– Aqui será seu espaço para dormir, brincar e estudar.</p>



<p>–– Legal, mamãe. Obrigado.</p>



<p>–– Vamos providenciar um armário para você poder guardar suas roupas e brinquedos. Agora iremos almoçar e depois sairemos para comprar roupas e outras coisas que você precisa.</p>



<p>A partir daquele dia a rotina do casal mudou completamente. Agora havia uma pessoa pela qual eles eram inteiramente responsáveis. Mas isso não foi difícil de se ajustar. Como Odete e Cássio trabalhavam o dia inteiro, colocaram o filho numa escola de período integral.</p>



<p>A vida do Chico mudou consideravelmente. Agora ele tinha uma família só dele. Apesar de ser filho único, não se sentia só, pois havia os amigos invisíveis, para os outros, com os quais conversava muito, mas só quando estava sozinho.</p>



<p>Nos finais de semana os pais levavam o filho para fazer a evangelização no centro espírita onde eles frequentavam. A integração dele naquela instituição o ajudou muito com sua mediunidade.</p>



<p>A criação que Odete e Cássio deram ao Chico foi primorosa, com liberdade, respeito e acima de tudo, muito amor. Chico brincava na rua de sua casa em companhia dos seus amigos vizinhos. Jogava bola, colhia manga nas mangueiras e tomava bastante banho num rio que passava nas proximidades de sua casa.</p>



<p>O tempo seguiu sua rota sem parar e Chico já estava na universidade federal quase concluindo o curso de engenharia da computação. Sempre foi um estudante dedicado, destacava-se pelo seu aproveitamento e sua criatividade. Isso lhe proporcionou logo um lugar como estagiário numa empresa que criava aplicativos para celulares.</p>



<p>Todas as vezes que Chico saia no seu carro, sua mãe sempre repetia:</p>



<p>— Cuidado, meu filho. Não use o celular quando estiver dirigindo. Preste muita atenção no trânsito. Seja prudente. E Chico respondia:</p>



<p>— Fique tranquila, mãe.</p>



<p>Ele é aficionado por equipamento eletrônico moderno. Está sempre atualizado pelas invenções recentes. Ultimamente resolveu adquirir um fone de ouvido de última geração. Possui memória interna para armazenar mais de mil músicas e a qualidade do som é excelente. Foi a uma loja e comprou um.</p>



<p>Ao sair da loja, a ansiedade de Chico era tão grande, que lá mesmo no estacionamento ele conectou o fone de ouvido ao notebook e transferiu para seu novo “brinquedo” as músicas que mais gostava.</p>



<p>Chico colocou os fones no ouvido, ligou o carro e saiu em disparada, feliz da vida, ouvindo suas músicas preferidas. Sua alegria era tanta que nem se importou com o volume alto do som, e poderia prejudicar sua audição se continuasse a ouvir daquele jeito. O som estava tão alto que o impedia de ouvir qualquer som externo.</p>



<p>Na avenida principal logo após a saída da loja, havia uma rua transversal pela qual transitava uma ambulância em alta velocidade, com as sirenes ligadas e vinda pelo lado esquerdo dele. Como Chico estava com o fone no ouvido e a música em som alto, não escutou o barulho da sirene. Como o sinal estava aberto para Chico, passou pelo cruzamento sem parar.</p>



<p>Ao mesmo tempo, a ambulância passou pelo cruzamento e o carro de Chico recebeu o impacto deste veículo, na lateral esquerda e na direção da porta do motorista. Com o choque, o carro de Chico foi jogado ao encontro de um poste na outra lateral da rua e esmagou o rapaz que faleceu no mesmo instante. A ambulância ficou abalada, mas logo chegou outra para levar o doente.</p>



<p>A tragédia ocorrida com Francisco deixou seus amigos desolados. Seus pais ficaram internados um dia no pronto atendimento do hospital, abalados pela dor insuportável. Recuperados do sofrimento. Mais calmos, conformados com o destino, acompanharam o funeral do filho.</p>



<p>Em casa, Odete abraçou Cássio e lhe disse: –– Nossa sina, meu marido, é ficarmos sozinhos. Portanto, sigamos nosso caminho.</p>
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		<title>O SORRISO DE AMANDA</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Sep 2025 23:46:09 +0000</pubDate>
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<p>Dia muito quente, típico do verão com sol forte, céu claro e de vez em quando batia uma brisa vinda do mar.</p>



<p>Rodolfo chegou ao trabalho no mesmo horário de sempre. Aos 55 anos, casado há quase trinta anos e um casal de filhos, ocupa uma diretoria numa empresa de grande porte.</p>



<p>Ultimamente vinha passando por momentos sombrios e conflitantes no seu relacionamento com Cristiane, sua esposa. Pensativo, tentava entender os motivos daquela situação e se perguntava: <em>Será que nosso amor acabou? Ou isso é só comigo?</em> <em>O que fiz? O que devo fazer? Será que Cris está com algum problema?</em></p>



<p>O orgulho que ambos carregavam, não permitia que dialogassem sobre esses assuntos. Ambos se esquivavam da conversa e fingiam que tudo estava bem. Para fugir do problema, os dois mergulhavam fundo no trabalho. Ele na empresa e sua esposa, como Assistente Social, na Prefeitura. Sem tomarem nenhuma atitude, não percebiam a gravidade do problema.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Certo dia, ao chegar na empresa, Rodolfo cumprimentou a todos com um aperto de mão e sorrindo bastante, como sempre fazia todos os dias. Apesar de seu jeito meio sisudo, é uma pessoa de bons sentimentos. Para ele a hierarquia só existia dentro da empresa. Fora do trabalho, quando havia oportunidade, participava de encontros em bares ou restaurantes, junto com os funcionários mais chegados.</p>



<p>Rodolfo luta para conciliar a razão com os ímpetos do coração, porque é exageradamente racional e objetivo. Depois de cumprimentar a equipe, entrou em sua sala, colocou a pasta sobre um armário atrás da mesa, serviu-se de café e ficou observando, através de sua janela, o horizonte.</p>



<p>Sentou-se, abriu o notebook e não havia e-mail urgente. Distraído, não percebeu mudanças na sala: mesa arrumada e um vaso com flores no canto da mesa. Mas com pessoas, é mais atento. Observa como se vestem, se comportam e conversam.</p>



<p>Absorto na leitura dos relatórios, viu uma pessoa entrar na sala, porém não deu importância. Apenas desviou a cabeça do notebook para olhar e retornou ao seu trabalho. Mas logo em seguida desviou o olhar novamente, ao perceber uma mulher desconhecida se dirigindo à sua mesa. Alta, corpo esguio, pele na cor de chocolate com leite e de textura aveludada. Corpo harmonioso, lábios carnudos e o batom vermelho acentuava ainda mais a beleza da boca. Os olhos apresentavam uma tonalidade de mel silvestre. Cabelos castanhos, ondulados até a altura dos ombros.</p>



<p>Caminhava com muita elegância e naturalidade. Vestida com trajes da empresa – saia preta à altura dos joelhos, blusa branca e blazer preto. Ao chegar à mesa com um sorriso bem discreto, estendeu a mão de dedos longos, bem tratada com unhas pintadas de vermelho, e disse:</p>



<p>— Sr. Rodolfo, me chamo Amanda e sou sua nova secretária. Estou começando hoje. Peço-lhe desculpas se a arrumação que fiz em sua mesa não lhe agradou.</p>



<p>Rodolfo, ainda paralisado pela surpresa, demorou alguns segundos para estender a mão em resposta ao cumprimento. Amanda, não demonstrou ter percebido o espanto do chefe e foi concisa em sua fala:</p>



<p>— Fui orientada sobre a rotina de nosso trabalho. Encontro-me aí na frente. Às onze horas o senhor terá uma reunião de diretoria. Retirou-se da sala com um sorriso silencioso e faceiro, pois havia impressionado o chefe.</p>



<p>Os dias passaram normalmente. Rodolfo envolvido no novo projeto de reestruturação da empresa não teve tempo de pensar em mais nada. Seu problema com o casamento continuava sendo ignorado.</p>



<p>Depois de alguns meses, numa sexta-feira, um dos funcionários o convidou para ir a um bar localizado nas imediações da empresa com o objetivo de festejar o aniversário da Amanda. Ele aceitou, iria em casa trocar de roupa e os encontraria no local. Ao sair da empresa, pegou seu carro, foi até sua casa e convidou sua esposa. Ela recusou o convite e disse-lhe:</p>



<p>— Você sabe que não bebo, mas obrigada pelo convite. Divirta-se.</p>



<p>— Nesse caso irei só. Vou chamar um táxi.</p>



<p>Quando chegou no bar, viu que a turma reunida em torno de umas mesas com bebidas, petiscos e muita alegria. Rodolfo não conseguiu disfarçar seu encanto pela Amanda, pois estava exuberante num vestido vermelho com um decote generoso que ressaltava sua beleza. Dirigiu-se até à moça, abraçou e beijou-a no rosto como cumprimento pelo aniversário.</p>



<p>— Sente-se aqui ao meu lado, chefe, disse Amanda. O que o senhor deseja beber?</p>



<p>— Primeiro, suprima o “senhor”, por favor. Use o “você”. Não só aqui, mas na empresa, também. Tomarei cerveja como vocês. –– Amanda levantou-se e foi pegar uma long neck.</p>



<p>A noitada foi muito animada e por volta de meia noite, já não havia mais ninguém da turma, só o Rodolfo e Amanda.</p>



<p>— Você veio de carro?</p>



<p>— Claro que não. Sabia que iría beber, deixei o carro na garagem de casa e vim de.</p>



<p>— E você, como vai para casa?</p>



<p>— Pegarei um táxi, também.</p>



<p>— Então vamos no mesmo táxi. Deixo você em sua casa, depois sigo.</p>



<p>— Aceito, se não for nenhum incômodo para o senhor&#8230; quer dizer, para você.</p>



<p>— Rodolfo, pagou a conta e saíram, pois o táxi já estava na porta os esperando. Ao chegarem no prédio da Amanda, ela perguntou:</p>



<p>— você não quer ir até ao meu apartamento para tomar um café forte antes de ir para casa? Faço num instante.</p>



<p>— Tudo bem, aceito o café.</p>



<p>Ao entrarem no apartamento, Amanda colocou a bolsa e as chaves sobre uma mesinha no hall de entrada, disse para Rodolfo ficar à vontade e foi até à cozinha localizada após um balcão contíguo à sala para providenciar o café.</p>



<p>Observou que Rodolfo sentou no sofá, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos e as mãos sobre a lateral da cabeça olhando para o chão. A moça sentou-se ao seu lado com duas canecas de café, entregou-lhe uma e perguntou:</p>



<p>— O que com você? Pois estou vejo que está muito pensativo e com um semblante de preocupação. Desculpe-me se minha indiscrição. Só quero ajudar.</p>



<p>— Ah, Amanda, são muitos problemas pessoais. Não sei o que dizer.</p>



<p>— Se você não quiser falar, não se preocupe. De qualquer forma estou à sua disposição. Pode contar comigo.</p>



<p>— Muito obrigado. Mas acho que você não poderá me ajudar, pois o problema é com o meu casamento. Estamos passando por uma fase muito difícil. Acho que eu e minha esposa não nos amamos mais. Será que o amor morre como uma planta que seca?</p>



<p>— Não sei, lhe dizer, porque nunca amei ninguém, mas se a morte do amor for como a de uma planta, o motivo foi falta de cuidado com essa “planta”, pois se você não colocar água, terra, adubo e outros cuidados necessários, qualquer vegetal sucumbe.</p>



<p>— E se eu não souber tratar de plantas, como resolver?</p>



<p>— Ah, Rodolfo, aí você estará em apuros, mas você sabe muito bem cuidar de quem precisa de atenção. Você está se desdenhando. Deixemos a metáfora de lado e vamos falar objetivamente.</p>



<p>Amanda deu um gole no café, colocou a caneca sobre a mesa de centro, ajustou-se no sofá, virando-se para ele e, ao iniciar a fala, Rodolfo disse:</p>



<p>— Você tem um sorriso maravilhoso.</p>



<p>Amanda enrubesceu, mas logo assumiu o controle:</p>



<p>— Não mude de assunto. Já faz alguns meses que trabalhamos juntos e nesse tempo, foi suficiente observar suas virtudes e seus defeitos. Não vou me ater aos defeitos, porque esses você precisará ter a humildade para identificá-los. Não posso me meter nisso. Mas suas qualidades como diretor e como um ser humano, são muitas e importantes para quem convive com você. Você sabe ser gentil, tolerante, compreensivo, caridoso, nunca se exalta, sempre pensa positivamente quando lhe levam problemas, sejam eles quais forem. Você sempre está disponível para ouvir as pessoas que o procuram para desabafar sobre problemas pessoais e quando elas saem de sua sala, percebe-se que saíram satisfeitas pelo simples fato de você lhes dar total atenção. Portanto, chefe, você tem todas as condições e habilidades para resolver esse problema com sua esposa.</p>



<p>–– O que você me sugere fazer?</p>



<p>–– Jogue seu orgulho no lixo e seja você o primeiro a romper essa barreira e dialogar em busca do entendimento. Talvez sua esposa esteja precisando de você e não tem coragem de lhe pedir ajuda. Para saber se é isso, precisará iniciar a conversa.</p>



<p>Rodolfo emocionou-se com as palavras de Amanda e abraçou-a fortemente. Depois de algum tempo ela se desvencilhou dele e falou:</p>



<p>— Você está com sorte de encontrar uma mulher como eu. Modéstia à parte, pois se fosse outra qualquer, me aproveitaria de sua fragilidade e já o teria levado para cama, porque você não é de se jogar fora. E olha, quem está lhe falando é uma mulher de 25 anos, que só viveu a metade do que você já experimentou da vida. Mas, fique tranquilo, Rodolfo, que não vou lhe atacar, disse Amanda, sorrindo para ele.</p>



<p>— Amanda, você está falando sério, ou está zoando comigo?</p>



<p>— Nunca falei tão sério com alguém como agora. Sou sincera com você. Fique certo disso. Pegue seu celular e chame um táxi e vá para casa agora.</p>



<p>Rodolfo chegou em casa, entrou silenciosamente e encontrou a esposa acomodada na cama dormindo e, sem fazer barulho, trocou de roupa, deitou-se ao lado dela e dormiu.</p>



<p>No dia seguinte, quando se levantou, por volta das nove horas, encontrou Cristiane na cozinha, concluindo a arrumação da mesa para o café da manhã. Aproximou-se dela, beijou-lhe no rosto dando-lhe bom dia. Ela sorriu e respondeu o cumprimento.</p>



<p>— Divertiu-se ontem à noite?</p>



<p>— A noitada foi boa. Aquela turma é excelente. São animados e têm uma boa conversa. Pena que você não estava lá. E você, o que fez?</p>



<p>— Terminei de ler o livro <em>Banzeiro Òkòtó, </em>da jornalista e escritora Eliane Brum. Uma obra sensacional sobre a Amazônia e a devastação que fazem naquela região com a desculpa de levar desenvolvimento e crescimento, em detrimento aos povos ribeirinhos e indígenas que ocupam aquelas florestas e rios. Destruíram a cidade de Altamira, no Pará, transformando aquele município em um dos piores lugares para se viver. Um lugar onde os mais fortes fazem suas próprias leis e exploram os mais fracos. Esse livro deveria ser lido por todos que queiram se informar sobre o assunto Amazônia onde a autora não mediu esforços e correu riscos para buscar essas preciosas informações.</p>



<p>–– Depois do café o que vai fazer?</p>



<p>— Vou ao shopping fazer umas compras e quando voltar passarei num restaurante para comprar nosso almoço. –– Dito isso, houve silêncio total entre os dois.</p>



<p>Passou o resto do sábado pensando, na conversa que teve com &nbsp;Amanda. Na manhã do domingo, após o café, Rodolfo convidou Cristiane a sentarem na sala para conversar. Ela tentou fugir da conversa:</p>



<p>— O que temos para conversar? Está tudo bem.</p>



<p>— Não está nada bem, Cris. Tenho urgência em conversar com você.</p>



<p>— O que aconteceu? Vai me deixar? Arranjou outra mulher?</p>



<p>— Rodolfo, riu bastante:</p>



<p>— Não é nada disso, meu amor. Você sabe muito bem que continuo te amando. Você é a mulher da minha vida.</p>



<p>— Humm, hoje você amanheceu romântico. Gostei.</p>



<p>— Cris, você já percebeu a frieza e formalidade que estamos levando a vida?</p>



<p>–– Não entendi onde você quer chegar.</p>



<p>–– Me pergunto: Onde foi parar aquele carinho que sempre tivemos um pelo outro? Assumo a culpa de ter me afastado um pouco de você. Creio que isso deva estar ocorrendo desde quando assumi esse bendito cargo de diretor.</p>



<p>–– Será que foi isso?</p>



<p>–– Acho que foi, porque fiquei preocupado em não suportar o peso da responsabilidade e acabei me afastando de você. Não sabia mais o que fazer, mas ontem, depois de conversar com minha nova secretária&#8230;</p>



<p>— Ah! Então você foi buscar conselhos amorosos com sua nova secretária? Ela é especialista em casos de relacionamentos que estão à beira da falência?</p>



<p>— Não, Cris, não seja irônica. Ela apenas me fez despertar deste pesadelo, por isso preciso conversar com você sobre nós. –– Pegou nas mãos da esposa, puxou-a para mais perto, mas ela soltou suas mãos e disse:</p>



<p>— Tudo bem, agora sou eu que falo. Também me afastei de você e fiquei fria, porque não tive a coragem de lhe perguntar o que se passava com você. Fiquei com medo da sua resposta, ou seja, que existia outra mulher. Então fiquei na expectativa de você me procurar e confessar<em>. </em>Peço-lhe desculpas pelo meu comportamento.</p>



<p>Dito isso, Cristiane pendurou-se no pescoço do marido e o beijou avidamente, como se estivesse fazendo aquilo pela última vez. Mais calma, ainda com o rosto bem próximo ao do marido, falou baixinho:</p>



<p>— Te amo. Amo seu sorriso espontâneo, sua voz, sua paciência, sua forma de lidar comigo. A todo momento fico contando os minutos até chegar o final do dia para poder lhe abraçar e beijar. Não imagino minha vida sem você, porque sua existência é a minha. Agradeço todos os dias por ter te encontrado. Todos esses sentimentos que nutro por você são incondicionais. Concluiu com mais um beijo apaixonado.</p>



<p>Rodolfo olhou para ela emocionado e com um largo sorriso, lhe disse:</p>



<p>— Também amo você por tudo isso que falou. Pegou-a no colo e foram para o quarto concluir a conversa.</p>
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		<title>A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 Aug 2025 14:49:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando ouvi que a vida é construída por escolhas, refleti sobre esta afirmação e não me aventurei em medir a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando ouvi que a vida é construída por escolhas, refleti sobre esta afirmação e não me aventurei em medir a quantidade de escolhas feitas durante o dia, mas posso afirmar, sem medo de errar, que são milhares. Muitas delas já estão automatizadas, do mesmo jeito quando programamos débito automático em nossa conta bancária. Não nos damos conta das consequências dessas escolhas.</p>
<p>Escolhi parar um pouco e relembrar as escolhas feitas ao longo da vida. Como já estou com 71 anos, foram centenas de milhões. As importantes e marcantes, consegui resgatar, as outra caíram no abismo do esquecimento.</p>
<p>Neste momento de contemplação do meu passado reconheci que fiz muitas escolhas inadequadas, mas fiz opções determinantes para minha evolução..Se hoje sou quem eu sou e onde estou, foram em decorrência de minhas escolhas. Desculpem caras leitoras e leitores, mas não relacionarei nenhuma, porque o objetivo deste texto não é falar do meu passado e de minhas escolhas. .</p>
<p>Fiz escolhas que foram decisivas no curso de minha vida. E as consequências refletiram somente em mim, ou seja, se deram errado, a culpa foi minha. Se obtive sucesso, o mérito foi meu.</p>
<p>Existem escolhas que parecem fáceis, mas o resultado é desastroso para o resto de nossa vida. Contudo, ´é reconfortante sabermos que teremos outra oportunidade de fazer novas escolhas, isto é, teremos outra vida, mas essa afirmação só tem validade para quem acredita.</p>
<p>Determinadas escolhas são opcionais. Em outras palavras, posso escolher em semear ou não, mas se colocar a semente na terra, a colheita será obrigatória. Se semearmos ódio, iremos recolher ódio. Se espalharmos a semente do amor, só colheremos amor. Esta regra é imutável e é para todas e todos.</p>
<p>Há escolhas difíceis, dolorosas, requerem sacrifícios, desprendimentos, amor. Isso mesmo, amor! Praticar o amor no sentido pleno da palavra é uma escolha difícil, mas a colheita é vasta e repleta de amor.</p>
<p>Portanto, caras leitoras e leitores, desejo-lhes que façam  escolhas proveitosas sua evolução.</p>
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		<title>NOTÍCIA RUIM CHEGA RÁPIDO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Aug 2025 12:49:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Toda criança e adolescente tem um grupo de amigos e amigas. Sou um deles que tive e ainda conservo essas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Toda criança e adolescente tem um grupo de amigos e amigas. Sou um deles que tive e ainda conservo essas amizades. Mesmo que não os vejam, guardo-os na memória e no coração.</p>
<p>Sem falsa modéstia, minha infância e adolescência foi feliz. Desde a década de 50, 60 e início da 70, tive o privilégio de viver em Santarém, no estado do Pará. Naquele período a cidade tinha pouco mais de vinte mil habitantes. O lugar era bucólico, todo mundo se conhecia, pelas ruas trafegavam poucos carros, as praias na orla da cidade eram todas limpas, sem poluição, onde grande parte da população usava como lazer e banhava-se nas águas daquele maravilhoso rio Tapajós. No meu caso, por exemplo, passei meus primeiros 18 anos desfrutando daquelas praias e daquele rio. Passava nelas muitas horas por dia e todos os dias, porque morava em frente a uma delas. Era só atravessar a rua, ultrapassar um calçadão e mergulhava naquelas águas cristalinas.</p>
<p>Quando somos crianças e adolescentes, o futuro não existe. Vivemos intensamente o presente e nunca pensamos em coisas tristes, como por exemplo, uma doença grave que alguém será acometido ou na morte. Vivíamos com a sensação de que aquela situação seria eterna e não percebíamos o tempo passar. Mas quando nos tornamos adultos, nos enchemos de responsabilidades, compromissos, metas, o futuro se torna presente e às vezes até um estorvo para nossas vidas.</p>
<p>Esta semana, tive mais uma vez a comprovação de que notícia ruim nos chega rápido. Recebi a notícia da morte de um amigo, no mesmo dia, que não o via há mais de 50 anos. Não sabia nada dele, onde morava, o que fazia e como vivia, ou seja, são recebi qualquer notícia boa dele que eu pudesse restabelecer o contato. Porém, quando um câncer ceifou sua vida, imediatamente o comunicado chegou-me através de uma pessoa que o conhecia.</p>
<p>O primeiro pensamento que me veio foi: <em>A fila está andando.</em> Sim, porque meu amigo tinha a idade próxima da minha, um ou dois anos mais velho. Fiquei triste, claro, mas a tristeza mais intensa foi pelo fato dele ter partido sem que eu tivesse a oportunidade de encontra-lo para relembrarmos os tempos compartilhados juntos.</p>
<p>Só me restou desejar que ele tenha feito uma boa viagem e desembarcado num lugar que possa ser útil para ele.</p>
<p>Siga seu caminho, Gilberto Brito</p>
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		<title>ENCONTRO DE ANJOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Aug 2025 22:13:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Silvia nasceu em Timon, interior do Maranhão e o dia não foi registrado, porque ela foi deixada dentro de uma [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Silvia nasceu em Timon, interior do Maranhão e o dia não foi registrado, porque ela foi deixada dentro de uma caixa de papelão forrada com alguns panos velhos, numa rua deserta, ao pé de uma mangueira. Um rapaz ao passar pelo local, à noite, ao ver algo se mexer naquela caixa, agachou-se e viu a menina acordada, silenciosa, apenas mexendo os braços e as pernas. Ao encontrar o olhar do rapaz, abriu um sorriso como se dissesse: “Me encontrou”.</p>
<p>Imediatamente pegou-a nos braços, olhou para os lados em busca de socorro. Como não encontrou ajuda, foi até a delegacia e entregou ao escrivão de plantão naquele momento. Registrou a ocorrência e deixou a bebê aos cuidados dele. O escrivão, com a criança nos braços, sem habilidade para lidar com aquela situação, pediu ajuda a esposa. Eles alimentaram-na e no dia seguinte entregaram a recém-nascida ao delegado. Ele a levou para o Orfanato, localizado no Centro Histórico de São Luis; A instituição funcionava num casarão antigo e, além de orfanato havia uma escola.</p>
<p>O orfanato, gerido por freiras, abrigava crianças abandonadas e ali ficavam até atingir a maior idade, se não fossem adotadas. A escola atende o público externo juntamente com as órfãs. No orfanato a bebê recebeu o nome de Silvia e seu registro ocorreu no dia 16 de janeiro de 1990.</p>
<p>Uma semana depois um casal, Naiara e Rogério, foi até a instituição em busca de uma criança para adotar. Como é de praxe, fizeram a entrevista com a diretora, explicaram-lhe os motivos da adoção e disseram não haver preferência por sexo e nem cor. O importante seria a empatia pela criança.</p>
<p>A diretora informou da chegada, na semana passada, de uma criança, que pelo tamanho e formação corporal, nasceu há pouco tempo.</p>
<p>–– Vocês querem vê-la, antes de lhes mostrar as outras crianças?</p>
<p>— Sim, gostaríamos, os dois responderam em conjunto.</p>
<p>A diretora pediu licença e desapareceu por uma porta. Pouco tempo depois retornou com a criança nos braços:</p>
<p>— Eis aqui essa lindeza, parece um anjo. É uma menina e foi registrada em nosso livro de entrada com o nome de Silvia.</p>
<p>Naiara pegou-a nos braços, e assim que seus olhares se cruzaram, a bebê abriu um longo sorriso para ela. Ambas ficaram se olhando e os olhos de Naiara começaram a brilhar e logo brotaram lágrimas. Virou-se para o marido e disse:</p>
<p>— Olha, bem, é linda! Pegue-a.</p>
<p>Passou a criança para os braços desajeitados de Rogério, e mais uma vez, o longo sorriso da bebê abriu-se quando os dois se olharam. O casal trocou olhares demoradamente e viraram os rostos simultaneamente para a diretora e falaram ao mesmo tempo:</p>
<p>— Não precisa nos mostrar as outras crianças, poderíamos adotar essa linda menina?</p>
<p>— Claro que sim. Tenho certeza de que vocês e a menina formarão uma linda família.</p>
<p>A diretora passou aos dois a relação dos documentos necessários para formalizar a adoção. Em poucos dias apresentaram comprovações de suas idoneidades morais e condições financeiras para tornar Silvia sua filha.</p>
<p>Concluída a adoção, a menina saiu do orfanato nos braços de Naiara e foi registrada como Silvia Couto Reis. O casal a levou para sua nova casa no bairro Calhau. O imóvel é comum e espaçoso. Na frente há um belo jardim e atrás, um quintal com área suficiente para Silvia crescer e brincar.</p>
<p>O tempo seguiu seu curso normalmente e Silvia se tornou uma bela menina, de convivência agradável, dócil e sua inteligência superava a idade intelectual. Gostava de brincar no quintal e quando aprendeu a ler, tornou-se uma devoradora de livros. Aprendeu a conviver com a solidão de uma forma muito tranquila.</p>
<p>Estudava numa escola privada famosa, porém isso não a deslumbrava, ao contrário. Os pais percebiam que não havia nenhuma empolgação com a escola, apesar de estar sempre em destaque pelos ótimos resultados obtidos. Ao completar dez anos, era um domingo de janeiro, ela pediu aos pais como presente de aniversário, a transferissem para uma escola pública perto de sua casa. Rogério inquietou-se com o desejo da filha:</p>
<p>— Aconteceu algo com você na escola, minha filha?</p>
<p>Naiara, ao ver o marido nervoso, falou:</p>
<p>— Não se altere, Rogério. Deixe a Silvia se explicar.</p>
<p>— Não gosto daquela escola, pai. As meninas e os meninos ficam “zoando” de mim. Me chamam de neguinha prosa; puxam meu cabelo; dizem: “volta para África”. Não tenho amigos, lá.</p>
<p>Naiara e Rogério olharam-se preocupados, mas não deixaram transparecer para a filha essa preocupação.</p>
<p>–– Vou conversar com a diretora, disse Naiara.</p>
<p>— Não mãe, não quero mais aquela escola. Por favor, me tirem de lá. ––  Silvia falou quase chorando.</p>
<p>––Tudo bem, filha. Amanhã vou procurar a diretora da escola estadual para averiguar a possibilidade de transferir você para lá. Você quer ir junto comigo?</p>
<p>— Vou sim, mamãe. –– Respondeu com um sorriso de felicidade.</p>
<p>Rogério, fechou a cara e encerrou a conversa:</p>
<p>— Não vou mais me meter nesse assunto. Tratem disso. O importante é você ser feliz, minha filha.</p>
<p>Mais uma mudança importante ocorreu na vida de Silvia. Começou a estudar na escola pública perto de sua casa. Foi bem recebida pela turma e logo conseguiu diversas amigas e amigos, pois sua simpatia contribuiu para isso. Seu ritmo de estudo em casa não alterou, pois isso ela já fazia muito, e isso compensou a deficiência encontrada na nova escola devido à falta de professores.</p>
<p>O tempo seguia seu caminho. e chegou o momento de Silvia entrar para a Universidade. Utilizou a Lei das Cotas Raciais e ingressou na faculdade de engenharia Civil da Universidade Federal do Maranhão, obtendo uma das maiores pontuação no ENEM. O curso foi concluído com louvor, tanto que, ganhou uma bolsa para cursar o mestrado no MIT &#8211; Massachussetts Institute of Technology, nos EUA.</p>
<p>Ao retornar para o Brasil, três anos depois, foi imediatamente contratada como engenheira master por uma construtora de grande porte. Em pouco tempo, foi designada para ser diretora da área de gerenciamento, controle de grandes obras e orçamentação. Estavam sob sua subordinação cerca de trinta engenheiros, na maioria homens, atuantes em obras de grande porte, dentro e fora do país. Havia, também, sob seu comando, uma equipe responsável pela elaboração dos orçamentos para as concorrências.</p>
<p>Logo que assumiu o cargo, percebeu uma certa resistência e rejeição pelos subordinados em virtude de ser mulher e negra, a comandar homens brancos. Com a habilidade, simpatia e, principalmente, a competência, esse preconceito dissipou-se num curto espaço de tempo.</p>
<p>Depois de assumir o cargo de diretora, adquiriu um apartamento no bairro Renascer, perto da casa onde residia com seus pais e foi morar sozinha. Aos domingos, impreterivelmente, ia almoçar com eles.</p>
<p>Silvia estava muito feliz no novo endereço, adotou a rotina diária de acordar às cinco horas da manhã, fazer a higiene matinal e um desjejum leve. Vestia uma roupa esportiva e saia correndo através das ruas do bairro até chegar na Litorânea onde continuava a corrida ao longo do calçadão e em seguida retornava para casa. Banhava-se, complementava seu desjejum e às oito horas em ponto já estava acomodada em sua sala. Tratava com sua secretária sobre a agenda e analisava os relatórios no computador.</p>
<p>Fez aniversário de 30 anos no seu novo endereço e era só felicidade, pois ocupava quase todo seu tempo disponível, quando não estava no trabalho, com a arrumação e decoração do apartamento até deixá-lo ao seu gosto.</p>
<p>Desde criança, aprendeu a lidar muito bem com a solidão, porém, sem se dar conta, isso  começou a lhe incomodar e causar sérios danos em seu comportamento e qualidade de vida. Não saia para fazer suas corridas matinais com a mesma frequência; deixou de ser aquela moça alegre e sempre de bom humor; estava cada vez mais pensativa com o semblante tenso. Certo dia, o diretor de RH, Ricardo, com quem conversava muito, chamou-a até a sala dele e lhe perguntou:</p>
<p>— Está acontecendo algo com você, querida amiga?</p>
<p>— Não está acontecendo nada.</p>
<p>— Como nada, Silvia. Você está visivelmente tensa. De mal humor, às vezes respondendo com rispidez aos seus subordinados. Não tem ido mais até à copa tomar cafezinho comigo.</p>
<p>–– Não há nenhum problema. Não se preocupe.</p>
<p>–– Desculpe, minha amiga, mas você não está bem. Preciso saber o que está acontecendo para poder lhe oferecer ajuda. Nem deveria falar, mas outro dia vieram três de seus subordinados compartilhar comigo sua mudança na forma de tratar a equipe.</p>
<p>–– De que forma? O que eles disseram? –– Falou exasperada.</p>
<p>–– Ultimamente apresenta-se nervosa e muitas vezes se torna áspera quando se dirige à equipe.</p>
<p>–– Isso é exagero. Foi excesso de mimo da minha parte.</p>
<p>–– Nada disso. Até a Josi que costuma sair com você,  confidenciou comigo suas recusas em ir ao cinema com ela. Você alega cansaço e ultimamente até rejeita os telefonemas dela.</p>
<p>— Ricardo, estou preocupada com três grandes concorrências que vamos participar.</p>
<p>— Não, minha querida, isso não é desculpa, pois você já está acostumada com esses desafios. Isso é rotineiro para você. Há outro motivo e você não quer falar.</p>
<p>— Meu amigo, deveríamos ter nascido com um interruptor no qual pudéssemos desliga-lo em definitivo. Estou cansada dessa vida de merda que tenho.</p>
<p>Ricardo surpreendeu-se com esse desabafo, mas manteve a serenidade. Permaneceu com o olhar fixo nela, pensou por um longo tempo a fim de escolher as palavras certas, e disse:</p>
<p>— Silvia, o que você disse é muito grave. Traduzindo em outras palavras, você quis se referir a suicídio.</p>
<p>–– Nada disso, Ricardo. É exagero seu.</p>
<p>–– Silvia, não somos robôs para possuir botão de liga e desliga.</p>
<p>–– Ah! Esquece o que falei.</p>
<p>— Querida amiga, você cresceu num ambiente cercado de amor, carinho, afeto e muita atenção de seus pais e eles devem ser pessoas maravilhosas. Você jamais sofreu por falta de atenção e maus tratos pela sua família.</p>
<p>–– Isso não posso negar.</p>
<p>–– E tem mais. Relaciona-se de forma primorosa com seus amigos e subordinados, portanto não há motivos para você não se sentir valorizada e integrada à equipe liderada por você.</p>
<p>–– É uma turma excelente.</p>
<p>–– Então, Silvia, a causa de toda essa revolta e pensamentos negativos, não é o excesso de trabalho e muito menos falta de amor. A falta de companhia para compartilhar intimidades e confidências, fez surgir em você essa tristeza excessiva, pesada e insuportável.</p>
<p>–– Nossa, Ricardo! Quanto drama!</p>
<p>–– Engano seu. Em momentos difíceis ou de tristezas, precisamos de amigos verdadeiros para nos escutar sem julgamentos, porque nessas horas de fragilidade, essas pessoas atuam como barreira de proteção.</p>
<p>–– Proteger do que, Ricardo?</p>
<p>— Dessa depressão pela qual está passando. A vida quando se torna um fardo, o suicídio não extrairá esse peso e nem representará alívio ou libertação. Ao contrário, será um erro gravíssimo e de grandes proporções.</p>
<p>–– Não falei em suicídio, não exagere.</p>
<p>–– Sem se dar conta, você desejou aliviar suas dores com um simples botão de desligar como se fosse um bico de luz. Provavelmente por ter trilhado o caminho das ciências exatas, acha que somos pura matéria e que, ao destruirmos nosso corpo, eliminaremos definitivamente todos os problemas e deixaremos de sofrer.</p>
<p>Silvia sensibilizou-se com as palavras de Ricardo. Ele, ao perceber o efeito de sua fala, continuou:</p>
<p>–– É sempre bom fazermos uma reflexão para entendermos um pouco quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Você me entendeu, querida amiga, concluiu Ricardo, sentando-se em uma cadeira ao lado dela.</p>
<p>Silvia, com os olhos lacrimejantes, olhou para ele e falou com a voz engasgada:</p>
<p>— Entendi, amigo. Muito obrigada. Você é um anjo que apareceu em minha vida.</p>
<p>Ricardo levantou-se, foi até sua mesa, pegou em uma das gavetas o livro do jornalista André Trigueiro, <em>Viver é a Melhor Opção,</em> e disse:</p>
<p>— Não sei o que você está lendo ultimamente, mas sei do quanto você é uma devoradora de livros. Leve este e leia-o, tenho certeza de que esta obra lhe servirá de alerta pelo que está passando.</p>
<p>Silvia pegou o livro e já estava se dirigindo à porta de saída quando Ricardo a chamou:</p>
<p>— Silvia, além da leitura desse livro, gostaria de lhe fazer outro pedido. Não sei se você segue alguma religião, mas isso não tem a menor importância, porque meu pedido não está relacionado com nenhuma religião. Ficaria muito feliz se você me fizesse companhia para assistirmos uma palestra do autor deste livro que ocorrerá no Centro Espírita no próximo sábado às 16 horas. Posso contar com sua companhia? O tema da palestra será baseado nesta obra.</p>
<p>— Tudo bem, assentiu Silvia. Irei com prazer. Gostei de sua sugestão. Vou ler o livro hoje, assim entenderei melhor a palestra.</p>
<p>— Ótimo, passo na sua casa as 15:30 h, para chegarmos o quanto antes a fim de conseguirmos um bom lugar, porque essa palestra é muito concorrida.</p>
<p>Na saída do evento, foram jantar no restaurante na avenida Litorânea.</p>
<p>— O que você achou da palestra?</p>
<p>— Ótima, interessante e o tema é novo para mim. Desconhecia completamente a gravidade desse assunto sobre suicídio. Realmente é uma questão de saúde pública. É um problema grave e silencioso, pouco divulgado e praticamente sem campanha de combate a esse mal.</p>
<p>— Domingo, às 16 horas, vou ao centro espírita, aliás, faço isso todos os domingos. Você gostaria de me fazer companhia amanhã? Normalmente assistimos palestras sobre assuntos espíritas, focado em algum tema específico e atual.</p>
<p>— Aceito o convite, Ricardo. Desconheço totalmente essa doutrina e estou precisando ouvir sobre algo diferente, porque de tanto lidar com orçamentos, custos, lucros, cronogramas, metas, etc., me desumanizei um pouco.</p>
<p>— Fico feliz por ter concordado. Você gostará.</p>
<p>— Amigo, agora sou eu quem vai lhe fazer um convite: Todos os domingos vou almoçar com meus pais, gostaria de ter sua companhia nesse almoço. Não avisarei mamãe, será uma surpresa. Depois do almoço, ficaremos lá até a hora de irmos para a palestra.</p>
<p>— Você tem certeza de que quer me levar para esse almoço?</p>
<p>— Claro, eles irão adorar você, com certeza absoluta. Você passa em casa às dez horas para me pegar, assim teremos mais tempo para conversarmos. Você gostará deles, porque são maravilhosos.</p>
<p>— Não tenho a menor dúvida. Combinado.</p>
<p>No domingo, pontualmente, Ricardo chegou ao prédio de Silvia que já o esperava na frente. Ao chegarem na casa dos pais dela, foram recebidos com naturalidade, por Rogério, seu pai. Cumprimentou o rapaz calorosamente e chamou sua esposa para receber a nova companhia de Silvia. Cumprimentaram-se como de praxe e Rogério levou Ricardo para sala, enquanto, Silvia acompanhou sua mãe até a cozinha para ajudá-la nos preparativos do almoço. Na cozinha, Naiara disse:</p>
<p>— Namorado novo, minha filha?</p>
<p>— Não, mamãe, é apenas um amigo. Trabalhamos na mesma empresa.</p>
<p>— Observei que esse rapaz gosta de você. Percebi pelos olhares dirigidos a você.</p>
<p>Silvia preferiu não comentar nada para não dar rédeas à imaginação de sua mãe, mas ficou pensativa nas palavras dela. O almoço transcorreu em clima de conversa amenas, piadas, principalmente porque Naiara e Rogério estavam felizes em ver a filha bastante mudada em relação ao domingo anterior, quando almoçou calada, de cabeça baixa, demonstrando preocupação e deixou os pais apreensivos com o comportamento da filha. Neste almoço, viram a filha alegre, leve, brincalhona e amorosa com a mãe e o pai.</p>
<p>Na saída da palestra, Ricardo convidou Silvia para jantar em algum restaurante de preferência dela, mas ela optou em ir para casa fazer um lanche, depois dormir, pois o dia foi muito intenso e estava cansada. Ao chegarem em frente ao prédio de Silvia, o rapaz desligou o carro e quando ia começar a falar, ela colocou o dedo na frente de seus lábios e disse:</p>
<p>— Muito obrigada Ricardo, você é um anjo que surgiu no meu caminho. Debruçou-se e lhe beijou rapidamente na boca, saiu rápida do carro e entrou no seu prédio. Ricardo, surpreso e estático não conseguiu reagir tempestivamente, quando se deu conta, Silvia já havia desaparecido no interior do prédio. Ligou o carro e seguiu para sua casa.</p>
<p>No dia seguinte na empresa, Silvia surpreendeu sua equipe, pois a mudança no comportamento foi visível. Voltou a ser aquela líder que já estavam acostumados a conviver diariamente. Na hora do almoço telefonou para Josi e a convidou-a para almoçar. Durante todo o dia Silvia evitou falar com Ricardo, sentia-se envergonhada pelo que fez ao se despedir no dia anterior, mas ao término do expediente, seu amigo foi até a sala dela e convidou-a para jantar:</p>
<p>— Por favor não recuse, preciso falar com você.</p>
<p>— Tudo bem, Ricardo, vamos jantar. Preciso falar com você, também.</p>
<p>No restaurante Silvia começou a falar, mas Ricardo pediu para ser o primeiro:</p>
<p>— Silvia, há muito tempo que não paro de pensar em você, não como simples amiga, mas como alguém para compartilhar a vida comigo. Que seja minha companheira para todos os momentos bons ou ruins. Confesso meu receio de confidenciar isso, pois temia sua rejeição e nossa amizade acabasse. Entretanto, os acontecimentos dos últimos dias estimularam-me a externar meu sentimento. Será que poderíamos ser mais do que amigos?</p>
<p>— Ricardo, você me fez esquecer do que ia falar, porque fui tomada de emoção. Você leu meus pensamentos, porque há muito tempo sinto atração por você.</p>
<p>–– Você está falando sério, ou só para me agradar?</p>
<p>–– Claro que estou. Não iria brincar com este assunto.</p>
<p>–– Por que não percebi isso?</p>
<p>–– Porque meu preconceito me fez esconder isso de você. Tinha receio de você não querer namorar uma negra.</p>
<p>–– Oh! Silvia, como você pôde pensar assim de mim?</p>
<p>–– Desculpe minha estupidez. Sinto vergonha dessa minha irracionalidade. Mas nesse fim de semana você fez dissipar todos esses pensamentos ruins. Peço-lhe mil desculpas.</p>
<p>Quando Silvia concluiu sua fala, Ricardo não falou nada, levantou-se, debruçou sobre a mesa e beijou-a na boca.</p>
<p>— Obrigado por me aceitar como seu companheiro.</p>
<p>A partir desse jantar, os dois concretizaram o relacionamento amoroso tão desejado por eles. Ricardo mudou-se para o apartamento de Silvia. Ela manteve a rotina de corridas ao amanhecer, mas Ricardo não a acompanhava, preferia dormir mais um pouco. Num desses dias, Silvia saiu correndo pelo caminho de sempre e ao atravessar a avenida Litorânea, antes de chegar ao calçadão, distraída, foi atropelada por um veículo que trafegava no mesmo instante. A colisão foi forte e a jogou alguns metros à frente. Com a queda brusca, sofreu uma leve fratura na perda direita, mas bateu fortemente a cabeça no asfalto e desmaiou. O motorista prestou socorro e Silvia foi levada de ambulância para o hospital Sarah. Recebeu o atendimento de urgência e em seguida internada na UTI, pois estava em coma devido ao choque na cabeça. Naiara que estava de plantão, foi rapidamente ao encontro da filha e, como era uma profissional de saúde experiente, ficou nervosa, mas não se desesperou. Telefonou para o marido e avisou do acidente. Depois avisou ao Ricardo. Ao ver a companheira naquela situação, não saiu mais de lá. Três dias depois, como o estado de Silvia manteve-se estável e, mesmo desacordada, não apresentava gravidade, então foi transferida para um quarto. Passados mais três dias, Silvia começou a reagir, mexendo levemente a cabeça e os braços. Em seguida abriu os olhos lentamente e, com a visão turva, divisou um vulto olhando-a sem identificar no primeiro momento, porém quando a vista foi clareando reconheceu o companheiro que estava sorrindo. Ela sorriu também e conseguiu dizer:</p>
<p>— Desculpe, me amor.</p>
<p>— Você não tem que me pedir desculpa meu bem. Fico feliz por você ter recuperado a lucidez. Como está se sentindo, tem alguma dor?</p>
<p>— Não, não me dói nada e me lembro de tudo que aconteceu. Estava distraída com meus pensamentos e não olhei para os dois lados como deveria.</p>
<p>— No que você estava pensando Ricardo.</p>
<p>— Em você.</p>
<p>–– Em mim? Sobre o que pensava?</p>
<p>––Você quer se casar comigo?</p>
<p>— O que Silvia? Você está me pedindo em casamento?</p>
<p>— Estou, por que? A mulher não pode pedir um homem em casamento? Ou o pedido tem sempre que partir dele?</p>
<p>Ricardo caiu na gargalhada e debruçou-se sobre ela para beija-la.</p>
<p>–– Claro que aceito, meu amor. Fico feliz por isso. Cadê o anel?</p>
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		<title>O PORÃO DE MEMÓRIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Aug 2025 23:28:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Raimundo era um caixeiro-viajante moderno. Não viajava com malas de amostras dos produtos que vendia, como antigamente. Sua única bagagem [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Raimundo era um caixeiro-viajante moderno. Não viajava com malas de amostras dos produtos que vendia, como antigamente. Sua única bagagem era um mochilão com algumas mudas de roupa e uma rede de tecido fino e resistente para dormir. Pendurado no ombro uma pequena bolsa onde levava seu notebook e um bloco de formulários para preencher pedidos em lugares onde não havia internet. Vendia uma variedade de mercadorias, tais como: materiais para pesca; tecidos diversos; alimentos enlatados; ferramentas em geral e muitos outros produtos. Seu escritório de representação, antes localizado em Campinas, foi transferido para Santarém, por questões pessoais e eu não quis cometer a indiscrição de perguntar o motivo da transferência.</p>
<p>Certa vez, tomando cerveja com ele, em um bar na beira do rio Tapajós, em Santarém, perguntei-lhe:</p>
<p>–– Por que você não manda seus funcionários viajarem? Afinal você é o dono da empresa.</p>
<p>— Porque adoro viajar, não sei trabalhar trancado numa sala, Luis.</p>
<p>–– Há quanto tempo você está em Santarém?</p>
<p>–– Há poucos meses. Estou desbravando a região, pois não conheço nada daqui. Mas nesse pouco tempo que estou aqui, já tenho algumas histórias guardadas no meu porão de memórias.</p>
<p>–– Conte algumas, por favor:</p>
<p>Ele começou pelo relato de sua primeira viagem à Juruti, cidade localizada às margens do rio Amazonas, oeste do Pará e que faz limite com o estado do Amazonas. Foi sua primeira viagem de barco.</p>
<p>— Peguei uma embarcação grande, com dois andares, que faz o trecho Santarém a Manaus, com parada em Juruti. Embarquei por volta das 17 horas, amarrei minha rede no salão do andar de cima para garantir um bom lugar. Preferi viajar em rede a usar camarote. A maioria dos viajantes utiliza as redes como meio de acomodação, porque além da passagem ser mais barata, é muito mais agradável. O barco partiu pontualmente às 18:00 horas, navegando em águas tranquilas pelo rio Amazonas, no sentido contrário a correnteza. Exatamente à meia-noite o barco aportou no trapiche de Juruti. Desembarquei com minha mochila na mão e a bolsa pendurada no ombro. Percebi a cidade deserta, exceto no trapiche pela movimentação dos embarques e desembarques.</p>
<p>–– Nossa! O que você fez?</p>
<p>––Aproximei-me de um rapaz encostado num poste e perguntei onde eu poderia achar uma pousada, hotel, ou coisa semelhante?</p>
<p>O cara olhou para mim e logo viu que eu era novato por aquela região, respondeu:</p>
<p>— Aqui não tem hotel, mas em frente àquela casa com  uma lâmpada acesa na porta é a pensão da dona Mariazinha. Pela hora ela não vai abrir a porta para o senhor, mas vá lá e veja, concluiu o informante.</p>
<p>–– Fui até a pensão e esmurrei a porta diversas vezes e ninguém apareceu. Olhei ao redor e vi uma pracinha que havia em frente. Escolhi um banco, fiz de mochila travesseiro e dormi atracado com a bolsa. Para minha sorte o período era de estiagem e a noite era de céu claro cheio de estrelas.</p>
<p>–– Você passou à noite deitado naquele banco?</p>
<p>–– Sim, e por volta de 5:30 h da manhã acordei com o focinho de um cachorro na minha orelha. Observei que o dia já estava clareando, olhei para pousada com a porta aberta. Dirigi-me até a pensão e fui recebido pela dona Mariazinha.</p>
<p>–– Bom dia, meu filho. Seja bem-vindo.</p>
<p>–– Preciso de hospedagem.</p>
<p>–– Está no lugar certo.</p>
<p>Anotou meu nome e acomodou-me num quarto com banheiro.</p>
<p>— Vá se banhar, depois venha tomar café, disse a bondosa senhora.</p>
<p>–– Devidamente instalado, e após o café da manhã, esperei a cidade despertar e iniciei minhas visitas ao comércio local. Minha primeira viagem foi uma excelente experiência e de sucesso.</p>
<p>Raimundo pegou embalo e não parou de falar. Só parava um instante para dar um gole na cerveja e emendava uma história atrás da outra. Eu só fazia ouvir e lidar com o garçom nos pedidos da bebida e petiscos.</p>
<p>–– Outra viagem interessante, continuou meu companheiro de mesa de bar, foi para Parauapebas.</p>
<p>–– Onde fica essa cidade?</p>
<p>–– Localiza-se ao Sudeste paraense, distante de Belém aproximadamente 700 quilômetros. Para chegar até lá, fui até Belém de avião, e peguei outro voo de linha até meu destino final. Pousamos em Serra dos Carajás. Do aeroporto tomei um táxi que me levou a um hotel indicado pelo motorista, pois não conhecia nada daquela região.</p>
<p>–– Uma maratona, não é meu amigo?</p>
<p>–– Pois é&#8230;Como cheguei cedo, ainda tive tempo de fazer minhas visitas a uma grande parte dos comerciantes. A praça é boa, vendi bastante no primeiro dia.</p>
<p>–– Você usa carro na cidade?</p>
<p>–– N]ao. Andei muito, mas valeu a pena. No horário do almoço fiz apenas um lanche pelo caminho e só fui me recolher ao hotel no final da tarde. Tomei banho e descansei um pouco da caminhada. Por volta de oito horas da noite, a fome bateu.</p>
<p>–– Havia algum lugar bom para se comer?</p>
<p>— O recepcionista do hotel indicou-me um restaurante do outro lado da rua. Ele recomendou-me a não recomendo à noite pela cidade, porque não é muito seguro.</p>
<p>–– E o restaurante era bom?</p>
<p>–– Sim. Comida boa e barata. Observei que o preço de um sanduiche seria praticamente o mesmo de um jantar à base de churrasco. Perguntei ao garçom se era muita comida e ele me respondeu:</p>
<p>— Não, senhor. São dois pedaços de carne no espeto acompanhado de macarrão, feijão, arroz e salada, um pouquinho de cada.</p>
<p>–– A descrição daquele prato me estimulou o apetite, então fiz o pedido do jantar. Quando trouxeram a comida, me assustei com a quantidade. O espeto era enorme com 4 pedaços grandes de carne e uma porção enorme de macarrão, feijão, arroz e salada.</p>
<p>–– Você comeu tudo?</p>
<p>&#8212; Claro que não. Percebi que não daria conta de comer tudo, chamei um garoto com sua caixa de engraxate pendurada no ombro e o convidei para jantar comigo e ele aceitou, mas me pediu licença e foi convidar mais dois garotos, também engraxates, para acompanha-lo e me perguntou:</p>
<p>— Meus amigos podem comer comigo?</p>
<p>— Podem sim, mas a mesa vai ficar muito apertada para nós. Vou providenciar uma para vocês aqui ao lado.</p>
<p>–– Eles devem ter ficado muito feliz.</p>
<p>–– Ficaram radiantes. O garçom relutou por causa da aparência dos meninos, mas fui firme e disse-lhe que eram meus amigos.</p>
<p>–– E como os garotos se comportaram?</p>
<p>–– Muito bem, acomodaram-se à mesa e depois de eu ter me servido de um pedaço de carne com um pouco de salada, passei o restante para os meninos. Solicitei uma garrafa pet grande de guaraná para eles e assim concluí meu jantar em boa companhia.</p>
<p>Tão logo meu companheiro de conversa terminou sua segunda história, pedi ao garçom mais uma cerveja, uma porção de bolinhos de piracuí e perguntei sobre outra viagem, pois seus relatos eram interessantes.</p>
<p>–– Fui fazer a praça em algumas cidades da Transamazônica e passei por uma situação inusitada na cidade de Uruará.</p>
<p>–– Como você chegou naquela cidade?</p>
<p>–– Fui de avião de Santarém até Altamira, e de lá peguei uma kombi que faz linha até Uruará, distante 180 quilômetros. Foi a primeira viagem que fiz por aquela região e no período de pouca ou quase nenhuma chuva.</p>
<p>–– Então nessa época deveria estar uma secura.</p>
<p>–– Muito seco. A poeira na estrada é intensa, que forma uma nuvem densa e prejudica a visibilidade. Na kombi viajavam dez passageiros e o calor era infernal, se abríssemos a janela para entrar um vento, o interior do veículo ficava irrespirável por causa da poeira.</p>
<p>–– Que horas você chegou lá?</p>
<p>–– Por volta das 17 horas e  por indicação do motorista, fui a um hotel próximo ao ponto das kombis. Na recepção, perguntei quais eram os tipos de quarto disponíveis e o rapaz respondeu:</p>
<p>— Temos apartamento com ventilador, os mais baratos e apartamentos com ar-condicionado cujo preço é mais elevados. Optei pelo de ar-condicionado, pois já haviam me informado que a cidade era muito quente e tinha muito pernilongo. Ao formalizar o registro de entrada, o funcionário do hotel me alertou:</p>
<p>–– À meia-noite faltará energia elétrica e só retornará às seis horas da manhã.</p>
<p>— Espera aí! –– Eu disse. –– Vamos ficar praticamente a noite toda sem energia elétrica?</p>
<p>— Sim, infelizmente, respondeu o rapaz. Estamos passando por esse problema e isso acontece todos os dias.</p>
<p>— Então por que você está me oferecendo quarto com ar-condicionado se nem ventilador funcionará? Muda meu quarto, por favor, para o mais barato.</p>
<p>–– Que situação, meu amigo!</p>
<p>–– Acomodei-me no apartamento e pendurei logo minha rede de dormir. Tomei banho frio para tirar toda a poeira e refrescar o corpo. Deitei-me para descansar um pouco e acabei pegando no sono. Despertei-me por volta das vinte horas com algumas ferradas de pernilongos. Aí falei comigo: <em>com este calor infernal e com esses pernilongos, só conseguirei dormir anestesiado pelas cervejas.</em></p>
<p>–– O que você fez?</p>
<p>–– Desci e perguntei ao recepcionista onde poderia tomar cerveja, naquele momento.</p>
<p>–– O rapaz indicou-me um quiosque localizado bem no meio de uma avenida, situada-logo dobrando a esquina da rua do hotel. Ao chegar no quiosque, fui recebido pela sua proprietária, aliás, ela era a única pessoa que estava lá para atender. Uma senhora de meia idade com seus 50 anos, aproximadamente, muito simpática e bem extrovertida. Foi logo dizendo:</p>
<p>— Este calor está pedindo uma cerveja bem gelada.</p>
<p>— Foi para isso que vim aqui, lhe respondi, me acomodando em uma mesa próxima ao balcão do quiosque. –– A senhora trouxe uma cerveja bem gelada e me perguntou se eu queria algo para comer.</p>
<p>— O que a senhora tem pra me oferecer.</p>
<p>— A Senhora não sabe, pois ela está no céu, brincou ela. Tenho petisco de filé acebolado; calabresa frita com cebola; macaxeira frita; e carne seca acebolada. Me chamo Manuela. Seja bem-vindo ao meu bar.</p>
<p>— Muito prazer, Manuela, retruquei. Eu sou Raimundo. Para começar, me traga carne seca acebolada.</p>
<p>–– Boa escolha, espere um instante tomando essa cerveja bem gelada.</p>
<p>–– quando ela trouxe o petisco, convidei-a para me fazer companhia, pois naquele dia da semana, não havia mais nenhum freguês para ela atender e ela não se fez de rogada.</p>
<p>— Tudo bem Raimundo, mas não vou beber, só lhe acompanharei na conversa, porque estou no trabalho.</p>
<p>–– Seu sotaque é diferente das pessoas daqui. De onde você é Manuela?</p>
<p>— Vim de muito longe. Sou de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Eu e meu marido viemos parar aqui na época da abertura da Transamazônica.</p>
<p>–– Por que vieram de tão longe para este fim de mundo?</p>
<p>–– Porque os militares, na época da ditadura, dividiram muitas terras por aqui, nos ofereceram um lote com muitas promessas não cumpridas e, como não tínhamos nada em Caxias, aceitamos.</p>
<p>–– Que aventura, Manuela!</p>
<p>–– Pois é&#8230; Eu e meu marido éramos jovens, não tínhamos filhos, então para nós o desbravamento foi uma oportunidade e esperança por dias melhores. Depois de acomodados em nossa terra, iniciamos uma pequena plantação de cacau, pois o espaço que nos coube, não permitia grandes coisas. Nossa iniciativa deu certo, mas o destino não quis que tivéssemos sucesso.</p>
<p>–– Por que Manuela?</p>
<p>–– Meu marido foi mordido por uma cobra venenosa, que tirou sua vida em poucos minutos. Não tive tempo de buscarmos ajuda do vizinho.</p>
<p>–– Você ficou só, depois disso?</p>
<p>–– No primeiro momento fiquei desesperada, sozinha naquele lugar ermo, porém a solidariedade dos meus vizinhos amenizou bastante minha dor e me fez enfrentar o desafio de tocar aquele modesto empreendimento, afinal eu não tinha outra opção.</p>
<p>–– Por que você montou esse negócio, então?</p>
<p>–– Quando já havia superado o infortúnio pelo qual havia passado, surgiu outro obstáculo, apareceu um sujeito que se identificou como corretor de um grande fazendeiro com a proposta de comprar minhas terras para atender um grande projeto de agronegócio.</p>
<p>–– Pelo visto você aceitou.</p>
<p>–– Não tive outra alternativa, porque fui ameaçada de morte se negasse em aceitar a venda.</p>
<p>–– O valor que lhe pagaram foi pelo menos justo?</p>
<p>–– O preço que acertaram, mal deu para montar esse negócio. Hoje moro de aluguel.</p>
<p>–– Já está tarde, vou para o hotel. Acabei de falar a energia elétrica foi embora. A escuridão tomou conta da cidade, não se enxergava um metro à frente.</p>
<p>–– Não se preocupe. –– Manuela levantou-se e disse:</p>
<p>— Tenho um pequeno gerador que vai nos tirar do escuro, mas só aguenta até às três horas, pois acabará o combustível, além do mais, preciso dormir, não é meu filho?</p>
<p>— Vou ficar mais um pouco e já lhe deixo sossegada. Me traga a saideira, por favor.</p>
<p>&#8212; Não se preocupe com a escuridão, lhe darei uma vela para iluminar seu caminho.</p>
<p>–– Muito obrigado –– Despedi-me de Manuela uma e meia da madrugada e saí igual a um fantasma caminhando através da escuridão com o toco de uma vela acesa na mão. Com muito esforço, cheguei ao hotel e bati inúmeras vezes na porta até um sujeito abriu mal-humorado, com cara de quem havia sido acordado de um sono profundo.</p>
<p>Quando Raimundo deu uma trégua nas suas histórias, aproveitei para lhe perguntar</p>
<p>— Você é casado?</p>
<p>Ele me olhou sério por alguns segundos, depois virou o rosto em direção ao rio Tapajós e ficou calado, pensativo por longo tempo. Depois virou-se para mim e disse:</p>
<p>–– Já fui meu amigo e não gosto de falar nesse assunto, mas como gostei muito de você vou lhe contar uma breve história.</p>
<p>–– Sou de Campinas e morava lá. Casei-me quando tinha pouco mais de vinte anos com uma campineira. Éramos muito felizes e tudo estava dando certo em nossa vida. Tínhamos um filho de três anos, minha esposa era professora do município e eu tinha uma corretora de seguros. Certo dia, no trabalho, recebo a comunicação de um acidente de carro com minha esposa.</p>
<p>Raimundo parou de falar, suspirou profundamente e vi que a emoção estava tomando conta dele. Com muito esforço ele continuou.</p>
<p>–– Uma carreta avançou o cruzamento sem parar, e colidiu na lateral do carro dela arrastando o veículo por mais de dez metros. Ao ouvir aquela informação, meu desespero foi tão grande e não sei como cheguei ao local do acidente tão rápido. Ao deparar com a cena, por pouco não desmaiei.</p>
<p>Raimundo já estava com a voz carregada de emoção.</p>
<p>–– Encontrei nosso carro igual a uma folha de papel amassada. Minha esposa e nosso filho estavam esmagados dentro do veículo. Minha dor foi tão grande que paralisei. Não me movia, não chorava, não falava nada, apenas assistia os socorristas do SAMU e dos Bombeiros fazerem o serviço de retirada dos corpos. Não sei quanto tempo depois chegaram as duas funcionárias que trabalhavam comigo na corretora e me levaram para o pronto socorro, pois eu estava passando mal. Fiquei um dia internado para me recuperar do choque. No dia seguinte todas as providências para o funeral já haviam sido tomadas pelos meus parentes. Os corpos foram cremados e as cinzas espalhei no Parque Ecológico, pois aquele lugar era o preferido de minha esposa e meu filho. Eles adoravam aquele lugar. Todos os domingos íamos até lá para fazer piquenique, andar de bicicleta. Ficávamos a manhã inteira.</p>
<p>Raimundo ficou calado, olhando para o vazio e eu não quis interromper seus pensamentos, mas logo em seguida ele continuou.</p>
<p>–– Após o acidente, vivi como um zumbi. Não tinha vontade nem prazer de fazer nada. Para mim, nada mais tinha significado e só desejava a morte. A corretora foi declinando até falir. Fui acolhido pelos meus pais que se comportaram com muita sabedoria, pois tinham certeza de que eu reagiria e a dor se dissiparia. Depois de um ano de confinamento total, um grande amigo meu sugeriu abrir um escritório de representação. Ele se comprometeu a me apresentar às indústrias, pois tinha muito trânsito neste meio e conhecia minha capacidade para tocar o negócio.</p>
<p>–– Bom que você reagiu, meu amigo.</p>
<p>–– Obrigado. Aceitei ajuda dele e estruturei o escritório, mas pouco tempo depois, senti a necessidade de sair da cidade, pois aquele lugar sempre me trazia recordações e me causavam muito sofrimento. Decidi então ir para bem longe e não sei qual o motivo de ter escolhido Santarém para me estabelecer. Aqui estou e não quero mais me casar e muito menos formar família. Vou viver assim até morrer.</p>
<p>Depois desse encontro que tive com Raimundo, naquele bar à beira do rio, nos tornamos amigos. Por volta das três horas da madrugada, pagamos a conta e cada um seguiu seu rumo. Nunca mais tivemos oportunidade de nos encontrar, mas trocávamos mensagens pelo celular frequentemente. Ele sempre me mandava notícias dizendo por onde estava viajando: “este mês estou fazendo a praça de algumas cidades do interior do Amazonas. Já estive em Coari; Parintins; Presidente Figueiredo. Hoje estou em Manicoré. Depois de amanhã vou para Tefé”.</p>
<p>Um dia eu estava almoçando num restaurante em Belém, e havia no local uma televisão ligada passando o noticiário. De repente uma notícia me chamou a atenção: Um barco lotado de passageiros estava atracando no porto de Óbidos, lugar onde o rio Amazonas é mais estreito, profundo e a correnteza é muito forte, sofreu um naufrágio, houve muitos mortos, inclusive muitos corpos desaparecidos. Saí do restaurante com uma sensação de que algo de ruim havia acontecido. No dia seguinte, comprei o jornal de maior circulação no estado e li a reportagem sobre o acidente com o barco, onde constava a lista dos passageiros que haviam desaparecido no  desastre do dia anterior. O nome do meu amigo estava na lista.</p>
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		<title>DIÁLOGO COM MEU CORPO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edu Mussi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Aug 2025 11:06:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Depois de passar uma péssima noite com dormida agitada, me acordei, sentei na beira da cama e fiquei estático, com [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de passar uma péssima noite com dormida agitada, me acordei, sentei na beira da cama e fiquei estático, com o olhar vazio, sem forças para me mexer. Não sabia se me levantava ou se deitava novamente. Não tinha ânimo para fazer nada. Parado, com as mãos apoiadas nos joelhos, olhei para frente e não sei quanto tempo fiquei naquela posição. De repente, fui despertado por uma voz:</p>
<p>–– Desanimado, né cara?</p>
<p>Assustado, ergui-me de supetão e busquei em torno do quarto para descobrir de onde havia saído aquela fala:</p>
<p>Percebi que a voz saia da minha boca, sem meus lábios se mexerem. Relutei em falar algo, porque duvidei de minha lucidez, mas me enchi de coragem e perguntei:</p>
<p>–– Quem é você?</p>
<p>–– Sou seu corpo.</p>
<p>–– Meu corpo?! –– Fui até o espelho, olhei todas as partes do meu corpo para ver se descobria algo diferente, mas ouvi a voz, novamente:</p>
<p>–– É isso mesmo que você vê. Mas não adianta ficar parado a me olhar, porque você não aceita o estado no qual me deixou. Já naturalizou esse aspecto disforme e nem percebeu a transformação.</p>
<p>Resolvi assumir aquele diálogo esdrúxulo e falei:</p>
<p>–– Tudo bem, o que você quer de mim?</p>
<p>–– Não quero nada, apenas ouça meu desabafo, porque estou cansado e minha resiliência vai esgotar a qualquer momento.</p>
<p>–– O que você quer dizer com isso?</p>
<p>–– Não se faça de desentendido. Você me compreende muito bem.</p>
<p>–– Não entendi. Seja mais claro e objetivo, por favor.</p>
<p>–– `Pois bem&#8230; Sempre fui tratado sem o mínimo de cuidado, desde quando nos encontramos. Mas nem vou me reportar aos tempos de criança e adolescência, porque se trata apenas de uma fase passageira e a gente deve relevar certos comportamentos inadequados. Porém você trouxe os vícios adquiridos daquela época e os mantém como adulta.. Esperava mudanças no seu comportamento, mas piorou. Você me trata como se fosse um objeto sem importância, descartável e substituível.</p>
<p>–– Não exagera!</p>
<p>–– Para você ter ideia da gravidade do momento, meus companheiros reuniram-se comigo e pediram-me para levar até você, as reclamações deles com o intuito de o sensibiliza-lo com o os acontecimentos.</p>
<p>–– Companheiros? Isso é demais para mim!</p>
<p>–– Claro, companheiros. Esse corpo é formado pela união de todos e você usa e abusa dele. Vou começar pelo estômago. Ele queixa-se de ser tratado como um saco de lixo e o deixa exausto de fazer tanta reciclagem todos os dias. Disse que além da péssima qualidade do lixo jogado para dentro dele, a quantidade é exagerada. Precisou expandir-se para poder acomodar tudo. Olhe-se no espelho e veja se ele não tem razão. Queixou-se da boca e reclamou por ela não fazer uma filtragem e deixar passar tanta porcaria. “Não tenho como evitar. Não depende de mim”. Disse ela. O intestino desabafou e falou que em breve faria greve e deixaria o lixo se acumular, com o objetivo de chamar a atenção para o problema. O fígado se queixou de trabalhar exaustivamente na tentativa de limpar seu sangue, mas alertou que vai passar muito lixo porque está esgotado.</p>
<p>–– Espera, espera, isto é verdade? Você não inventou só para me intimidar?</p>
<p>–– Por que faria isso, meu amigo. Se eu for para o brejo, você também irá junto. Claro que você tem alternativa de ir para outro lugar, só não sei para onde. Eu tenho certeza de me tornari comida de vermes ou um monte de cinzas.</p>
<p>–– Tudo bem. Tem mais alguma reclamação?</p>
<p>–– Alguma? São muitas.</p>
<p>–– Então prossiga de uma vez.</p>
<p>–– O f pâncreas queixou-se pela baixa produção de enzimas, pois está aquém do necessário, devido a enxurrada de álcool que é jogado todo dia para dentro dele e alergou para as consequências funestas nos outros companheiros. Advertiu para prestar atenção nos rins. Um deles paralisará a qualquer momento..</p>
<p>–– Por isso que percebi minha urina meio esquisita.</p>
<p>–– Ah, é?? Você percebeu e não associou aos péssimos hábitos adotados. Nos últimos tempos você começou a introduzir um pó branco horrível através do nariz. Sei disso porque ele se queixou para mim. Falou-me de seu sofrimento por isso.</p>
<p>–– Até o nariz reclama??</p>
<p>–– Pois é, meu amigo. Ele reclama pelo incômodo causado por aquele pó, mas o pior é o cérebro. O coitado destrambelhou-se por causa dessa porcaria introduzida no nariz. Ele precisa aumentar cada vez mais os esforços para gerir os demais companheiros. Mas se queixou por não conseguir muito sucesso com as pernas e os braços. E você nem se dá conta.</p>
<p>–– Percebi, sim. Observei uma certa fraqueza nos braços e pernas. Mas isso é cansaço por trabalhar muito.</p>
<p>–– Pois é&#8230; não é isso não. Você está equivocado.</p>
<p>–– Ainda tem mais reclamação?</p>
<p>–– Meu amigo, se fosse relatar todas e incluir os detalhes, daria um livro do tamanho de uma bíblia. Mas vou falar de mais duas, apenas.</p>
<p>–– Ainda bem, porque já adoeci só de ouvir essas queixas.</p>
<p>–– Seus pulmões estão uma lástima. Quem me disse foram eles. Relataram-me de uma forma como se tivessem acabado de fazer um corrida longa. Fiz essa observação, mas eles esclareceram não ser nada disso. O motivo de apresentarem esse estad, é a ingestão de fumaça diariamente. E essa porcaria, palavras dele, cria uma massa escura e dificulta cada vez mais a circulação do ar. Quem se encontra bastante abalado, também, é o coração. Faz cada vez mais força no bombeamento do sangue. Ele desconfia de uma parada a qualquer momento.</p>
<p>–– Nossa! Isso me parece um drama, exagerado.</p>
<p>–– Nada disso, meu amigo. Você, com sua arrogância, acha tudo isso imaginação, irrelevantge. Uma última queixa para finalizar, Sinto-me inchado de gorduras por todas as partes. E você não quer ver. Me assusta mais, ainda, é o aumento disso a cada dia e reflete paulatinamente na mobilidade.</p>
<p>–– Ah, chega de lamentações! Vá a merda com suas queixas. Hoje é sábado, vou a uma churrascada e encher a cara. Tchau.</p>
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